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sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Caderno dos Delírios



O meu olhar
Numa folha de papel de um branco quase puro, passeio os meus olhos naus, com um lápis de carvão a dançar por entre os dedos. Com um traço se faz uma linha que com sorte pode ser rio ou mesmo horizonte. Com outro se faz um círculo, acima, que pode ser sol ou então só luar. Decidirei no fim, ao pintar.
Mas se o lápis baloiçar à deriva na mão de um poeta vai ter muito que contar. Senhor dos desertos, das fontes e de todos os amores, fará prodígios e até plantará flores. Mas, haja o que houver, para o lado de lá da linha, em princípio, o céu. Para o lado de cá, no final, só resta o mar. É tudo uma questão de cores, ao terminar.
Se riscar uma barca bela do lado de cá e arriscar uma estrela da tarde do lado de lá da linha feita horizonte, ninguém acreditará que o mar do lado de cá não ruma ao céu do lado de lá. Mas se uma gaivota voar perdida do lado de lá da linha feita horizonte, então confirma-se. Todo o mar a bailar do lado de cá beija o céu todo a rezar do lado de lá. Pronto! Vou então desenhar.
O lápis de carvão faz do traço uma linha quase recta, a meio do branco ainda virgem da folha de papel, deitada inteira e nua à minha frente. E do lado de lá do risco, do traço, da linha, descanso o olhar. Do lado de cá não sei que traçar. Um pastor a pescar baladas, canções, cantigas ao vento. O meu lápis tem voz e sabe cantar. Mas não custa tentar. Do lado de cá do risco da linha, só me resta ser onda do mar e saber navegar.
E dou cores suaves de aguarela ao céu por cima do mar, ao sol que anoitece luar, à nau que pode ser estrela ou gaivota que nasce da ponta de um lápis de carvão e sonha agora voar. A imaginação tem asas e não sabe parar.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Caderno dos Delírios



Caçador de Miragens
Num dia desse Janeiro do ano que era o sétimo os meus olhos ao despertar traçaram no céu um destino talhado para navegar. Correu-me o tempo nas veias em dias de mar aberto e de cacimbo do sul que não cessa de chorar sobre as dunas do deserto. Fiz-me caçador de miragens de horizontes sem fim e tentativa de barco a remar na praia de todos os sonhos que me consomem assim, assim bem devagar.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Caderno dos Delírios

Epitáfio
Aqui jaz o pastor dos sonhos, náufrago na derradeira jornada e em desesperado lamento de mãos nuas já madrugada. Amante das ondas e do mar, das dunas com pele de silêncio e das margens quase a chorar na lembrança de um rio imenso. Senhor do voo dos pássaros, das miragens de todas as flores e das manhãs tristes de Março que dançam e gritam as dores.
Aqui jaz ainda a sonhar, rendido à solidão da memória, o pastor do deserto sem história por mistério de ter morrido sem ter a quem as contar.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Caderno dos Delírios


silence-kani polat

O cego que afinal tinha uma menina nos olhos
Imagina-me cego! Completamente cego e de bengala a tactear o presente na ponta do focinho de um cão amigo que levo pela trela. Definitivamente cego sento-me num banco do Jardim da Avenida. E as benditas memórias que me assaltam. Não vejo, mas penso e revejo. Por detrás dos óculos negros com aros dourados, quase iguais aos de todos os cegos, o filme da vida faz-me brilhar a menina dos olhos dos meus sonhos.
Imagina-me cego! Fatalmente cego e cansado do passado. Quem teria então olhos para mim? Uma mulher de cabelos ao vento em esculpido corpo de sereia dançando à beirinha do mar? Um sorriso em lábios de mel, olhos de encantar desenganos, desejos de noites de lua cheia e de silêncios pela manhã? Já cansada de tanto me esperar.
Imagina-me cego! Verdadeiramente cego, se tudo isto não fossem miragens, eu garanto que não há cego que não tenha uma menina nos olhos. Porque somos os sonhos que temos!

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Caderno dos Delírios




Construções na Areia
Tropeço no tempo que passa em segredo e desenho sem esperança silêncios na areia em horas de maré baixa. E as palavras que não digo são borboletas amarelas que morrem neste degredo quando sonho contigo.

sábado, novembro 08, 2008

machimbombo americano


1. Eu já tinha visto esta fotografia. Na ronda que faço pelos meus blogs de referência, lá estava ela num post: “É irresistível partilhar com os leitores do CAUSA NOSSA esta extraordinária fotografia, que me foi mandada por alguém que segue atentamente o que se passa no Corno de África. O camião apinhado é semelhante a muitos que se vêm passar pelo Darfur (Sudão) ou pelo vizinho Chade.”
2. Quando hoje abri o correio electrónico deparei-me com um e-mail que continha a mesma fotografia, mas com uma mensagem diferente: “E começaram as anedotas… Família de Obama a caminho da Casa Branca”.
3. Para além de tudo o mais que se possa pensar, incluindo o mau gosto da “joke”, retive as palavras camião e família. Porque me trazem à memória a América e a África que conheço porque nelas estudei e vivi. E também porque nem Obama será o camião que muitos pensam poder vir a ser, nem a família africana deixará de confiar sempre e primeiro no mais velho de entre os sábios da tribo.
4. E não é que me relembrei de Manoel de Barros. O brasileiro de quem se diz que a sua poesia "Tem a força de um estampido em surdina. Carrega a alegria do choro." E de quem ele próprio diz que "Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira".

segunda-feira, junho 23, 2008

CADERNO DOS DELÍRIOS

Posta que me foi a duvida, despachei o embaraço de perceber se é preferível ir para a "guerra" com um traidor a ir com um tolo. O traidor dá-nos um tiro no coração a qualquer instante. O tolo, em todas as ocasião em que tropeça nos atacadores, tantos dá até que nos acerta com um fogacho na cabeça. A traidores e a tolos, ou a tolos traidores, quando me falam em não fechar portas, indico-lhes sempre a da rua. E a minha rua é um rio de enxurradas.

sábado, junho 21, 2008

A propósito

já que se há-de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas
(Clarice Lispector)

quarta-feira, abril 16, 2008

Caderno dos Delírios

A experiência dos caçadores no deserto do Kalahari aconselha, às vezes, a praticar a caça de espera. Esta modalidade não é muito do meu agrado, pois ficar empoleirado numa mutala, para que a onça saia ou seja obrigada a sair da toca, mostrando-se por inteiro, obriga frequentemente a longas e desconfortáveis jornadas.

quarta-feira, junho 06, 2007

Caderno dos Delírios

Hoje parto daqui.
Daqui onde as pernas me tropeçam por não querer criar raízes. Amanhã estou aí, onde o coração me voa do peito feito nau em mar aberto. Hoje homem-castelo. Amanhã flor-de-imbondeiro. Aqui anel de fogo no celeiro. Aí fio de vento no deserto. Hoje planto acácias daí nas muralhas dos meus olhos. Amanhã canto serenatas daqui às janelas dos meus sonhos. Pouso em repouso no cimo da árvore mais alta do meu destino. E descanso de mim.
Por fim.