sexta-feira, fevereiro 16, 2007

O nunca mais não existe

Tenho a leve impressão que comecei a jogar matraquilhos cedo. Mesmo antes de me imaginar craque da bola a sério. O que se revelou de todo em todo um desastre. A jogar ping-pong (no meu tempo não se chamava pomposamente ténis de mesa) tenho a certeza absoluta que me iniciei na sede dos Bombeiros na Avenida onde ao longo dos anos disputei aguerridas partidas. Nunca joguei ténis no Clube Náutico, mas perdi manhãs de praia a ver babado quem jogava. Principalmente pelo estilo anos sessenta das vestimentas de tons claros, quase bebé, e pela souplesse dos competidores.
Mas importa agora mesmo é falar dos matraquilhos, jogo bem mais ao meu nível, na altura e ainda hoje, porque descobri em leitura recente uma série de aspectos interessantes: que em Portugal há mais de três mil jogadores federados; que os campioníssimos lusos faltam às competições internacionais porque os nossos bonecos são de chumbo enquanto lá fora são de plástico; e que os nossos matrecos são o pebolim do Brasil, o foosball dos EUA e o futbolín em Espanha.
Mas interessante-interessante mesmo é saber que os matraquilhos nasceram pela mão do galego Alexandre Finisterre, poeta falhado (como eu e tantos de nós) e que ferido na Guerra Civil espanhola, viu, no hospital onde estava, meninos ainda mais mutilados e com uma tristeza que parecia irremediável: nunca mais poderem jogar futebol. Lembrou-se então de pô-los a sonhar novamente com a bola-a-rolar através de uma mesa com balizas, bonecos juntos por uma barra e obrigatoriamente uma bola.
Assim se prova que o nunca mais não existe. Haja sonho e vontade de correr atrás da redondinha, nem que seja só com os olhos.