quarta-feira, janeiro 14, 2009

Caderno dos Delírios



Caçador de Miragens
Num dia desse Janeiro do ano que era o sétimo os meus olhos ao despertar traçaram no céu um destino talhado para navegar. Correu-me o tempo nas veias em dias de mar aberto e de cacimbo do sul que não cessa de chorar sobre as dunas do deserto. Fiz-me caçador de miragens de horizontes sem fim e tentativa de barco a remar na praia de todos os sonhos que me consomem assim, assim bem devagar.

Ary dos Santos



Sete Letras

Esta palavra saudade
sete letras de ternura
sete letras de ansiedade
e outras tantas de aventura.

Esta palavra saudade
a mais bela e mais pura
sete letras de verdade
e outras tantas de loucura.

Sete pedras, sete cardos,
sete facas e punhais
sete beijos que são nardos
sete pecados mortais.

Esta palavra saudade
dói no corpo devagar
quando a gente se levanta
fica na cama a chorar.

Esta palavra saudade
sabe a sumo de limão
tem o travo de amargura
que nasceu do coração.

Ai! palavra amarga e doce
estrangulada na garganta
palavra como se fosse
o silêncio que se canta.

Meu cavalo imenso e louco
a galopar na distância
entre o muito e entre o pouco
que me afasta da infância.

Esta palavra saudade
é a mais prenha de pranto
como um filho que nascesse
por termos sofrido tanto.

Por termos sofrido tanto
é que a saudade está viva
são sete letras de encanto
sete letras por enquanto
enquanto a gente for viva.

Este palavra saudade
sabe ao gosto das amoras
cada vez que tu não vens
cada vez que tu demoras.

Ai! palavra amarga e doce
debruçada na idade
palavra como se fosse
um resto de mocidade.

Marcada por sete letras
a ferro e a fogo no tempo
Ai! palavra dos poetas
que a disparam contra o vento.

Esta palavra saudade
dói no corpo devagar
quando a gente se levanta
fica na cama a chorar.

Por termos sofrido tanto
é que a saudade está viva
são sete letras de encanto
sete letras por enquanto
enquanto a gente for viva.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Frederico García Lorca



TENGO MIEDO A PERDER LA MARAVILLA

Tengo miedo a perder la maravilla
de tus ojos de estatua, y el acento
que de noche me pone en la mejilla
la solitaria rosa de tu aliento.

Tengo pena de ser en esta orilla
tronco sin ramas; y lo que más siento
es no tener la flor, pulpa o arcilla,
para el gusano de mi sufrimiento.

Si tú eres el tesoro oculto mío,
si eres mi cruz y mi dolor mojado,
si soy el perro de tu señorío,

no me dejes perder lo que he ganado
y decora las aguas de tu río
con hojas de mi otoño enajenado.



segunda-feira, janeiro 12, 2009

Livro das Crónicas de África




Depois de horas de cavalgada e algumas paragens para dar descanso ao lombo, vislumbro a Manga das Areias, nome porque era conhecida a grande enseada, descoberta por Diogo Cão na sua terceira viagem em 1485.
A Baía dos Tigres já não é uma restinga, mas uma ilha. No dia 14 de Março de 1962, pouco depois de ter sido construído o sistema de captação de águas na Foz do Cunene, o mar vingou-se com forte calema. Atirada de SW, bateu furiosamente a parte de fora do saco da restinga, com ondas de mais de dez metros de altura. Cortou a língua de areia que unia o continente à Baía dos Tigres e rompeu as condutas. Isolou ainda mais os sofridos pescadores que lá viviam e pendurou-lhe mais uma cruz nas costas. Foi um espectáculo enorme, segundo contam. E a que a população diminuta assistiu impotente e temerosa, sempre à espera de que a própria ilha fosse tragada pelo Atlântico. A verdade histórica é que tudo leva a crer que este fenómeno seja periódico. No Mapa Mundi de 1623 de António Sanches é assinalada uma restinga. Na Carta Geográfica da Costa Ocidental desenhada em 1790 por Pinheiro Furtado é uma ilha. Pedro Alexandrino visita-a em 1839 a bordo da corveta Izabel Maria e vê uma restinga. Mas em 1846, nos seus Ensaios Estatísticos, Lopes de Lima já fala outra vez em ilha. Em 1861, os primeiros pescadores Algarvios que aqui chegam encontram uma restinga fechada. A verdade é que desde 1962 até hoje é uma ilha.
Resta-me a esperança de um dia puder rever a Baía dos Tigres. Lembro-me que as edificações assentam em pilares que deixam espaço suficiente para que as ventanias de areias possam prosseguir caminho. O posto sanitário, a escola, a estação radio-telégrafo-postal, a delegação marítima e a igreja de São Martinho, alinham-se de um lado e do outro da única rua cimentada e que serve também de pista de aviação. Nos primeiros tempos o abastecimento de água provinha de cacimbas de água salobra na margem continental da baía. Na praia do lado da baía está o depósito de água que era reabastecido pelo Save ou pelo 28 de Maio, a partir do Curoca ou de Moçâmedes. Água fervida e filtrada em sangas. Os cães Baía dos Tigres eram célebres. Comiam e bebiam o impossível. Nadavam e pescavam de cerco e em matilha, empurrando o peixe para terra. Tinham membranas interdigitais. E bebiam água, passando de manhã cedo a língua suavemente por sobre a água salgada, retirando assim a fina camada de água doce que o cacimbo deixava. Instinto de sobrevivência a quanto obrigas…
Acampamos e dormimos aqui. Para amanhã retomar viagem. Vamos acender a fogueira de lenha de mutiate que algum viajante deixou. Ligar as gambiarras à bateria do jipe. E comer os carapaus de escabeche que nos prepararam e que sabe a manjar dos Deuses a quem anda no deserto.
A noite felizmente está calma. Os Tigres estão a dormir sossegados. Hoje as dunas decidiram dar-nos tréguas. E eu agradeço.


sexta-feira, janeiro 09, 2009

Caderno dos Delírios

Epitáfio
Aqui jaz o pastor dos sonhos, náufrago na derradeira jornada e em desesperado lamento de mãos nuas já madrugada. Amante das ondas e do mar, das dunas com pele de silêncio e das margens quase a chorar na lembrança de um rio imenso. Senhor do voo dos pássaros, das miragens de todas as flores e das manhãs tristes de Março que dançam e gritam as dores.
Aqui jaz ainda a sonhar, rendido à solidão da memória, o pastor do deserto sem história por mistério de ter morrido sem ter a quem as contar.

Livro das Crónicas de África



Como estou aqui decido continuar rumo ao sul. São cento e oitenta quilómetros até à Baía dos Tigres e depois oitenta até à Foz do Cunene. O ideal são dois jipes e mais gente, para que havendo dificuldades nos possamos acudir. Está traçada a vigem. Vamos pela praia e pernoitamos lá na fronteira com a Namíbia da Costa dos Esqueletos. Depois, havemos de calcorrear o Iona, passar pelo acampamento do Tito na Espinheira e abancar na Gruta do Turra. E finalmente Tambor, S. João do Sul e Moçâmedes. A todo o vapor saímos de madrugada a fazer conta às marés. Reforçados de gasóleo e muita água. E já agora um farnel bem composto onde não falte peixe de escabeche. Vamos a isso!
Deixamos para trás Porto Alexandre, onde perdura, no imaginário de algum mais velho que ainda não sofra de deslembranças, o caso de Maria da Cruz Roldão. Mulher Olhanense, viúva do pescador Tomé do Ó, conhecida como a Regedora. Figura lendária do final do século XIX, ficou célebre como enfrentou os oficiais do navio de guerra Inglês HMS. De bandeira ainda monárquica azul e branca desfraldada, meteu-se num bote e intimou os britânicos a retirar das águas portuguesas.
São dunas e mar e um mar de dunas até à baía dos Tigres. Diz-se que quem ama o deserto ama o mar. E aqui estão os dois elementos em toda a sua grandeza e esplendor. É de matar ou então só cegar incautos esta prenhidão tamanha. Um mar imenso a bombordo que abalroa de frente com a vastidão do deserto a estibordo numa toada que parece de choro sofrido e repetido. Umas vezes vamos a patinhar na água e outras voamos na crista das dunas. Com os pneus meio vazios cavalgamos o tempo numa luta insistente e teimosa contra as vagas de areia solta. Como um veleiro no mar alto a cavar ondas sem parança. Não vemos vivalma. Apenas um garajau tonto e desorientado, perdido da sua costumeira rota. E restos de velhos navios que o mar piedosamente sepultou na praia. A espuma deste oceano, soprada pelas ondas, adormece e morre na areia. Esta terra não foi feita nem para gente nem para bichos. Só o vento consegue viver aqui. E mesmo assim o seu queixume é constante e bastas vezes violento. Há quem diga que a denominação Baía dos Tigres se deve ao ruído enervante de fera molestada que o redemoinhar da areia provoca no cone superior das dunas.
O sol sente desejos de beijar o dia. O cacimbo cerrado faz-lhe frente, mas o astro vence-o transbordando para além do horizonte o seu vermelho fogo de paixão. Deita então a cabeça no mar e espreguiça-se por sobre as dunas. Como que a querer reanimar este fim do mundo onde nem o mais triste e solitário dos tigres resistiria.


SALAMANCA


quinta-feira, janeiro 08, 2009

MORRO DE S.PAULO

Fiama Hasse Pais Brandão



Perguntai ao muro

Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?

Ensaio sobre a Cagança


nei miei pensieri - luisa masala

La raison, c'est l'intelligence en exercice ; l'imagination c'est l'intelligence en érection.
Victor Hugo


quarta-feira, janeiro 07, 2009

Livro das Crónicas de África



Hoje vou a Porto Alexandre. Por aquela estrada que é uma recta só, com uma curva no meio, porém suave. E que é costume ser engolida pelas areias e asfaltada de miragens. Saio daqui bem amanhece, depois de um café bom de cafeteira. Sem borra. E vou andando até à Subida Grande. Devagar que nestas terras a pressa não tem pressa. Saio cinquenta metros da estrada, virando à esquerda, para pisar mais uma vez o tapete de ágatas de todas as cores. Retomo a estrada. Passo pela casa que já teve portas, janelas, tecto, paredes pintadas e até cantoneiro mesmo ele próprio.
Chego ao Buraco. Estamos a meio caminho dos noventa e três quilómetros que unem Moçâmedes a Porto Alexandre. Os mais velhos, no século antepassado, demoravam tanto tempo na viagem que paravam aqui para almoçar. Merendavam debaixo duma espinheira que ainda cá está de pé e a que ironicamente chamaram de Hotel do Buraco. Algumas vezes pernoitavam ou resguardavam-se, pois o vento era tanto que a estrada, ainda não asfaltada, simplesmente levava sumiço. Trilhavam nova porque a caminhar se faz o caminho.
Paro na direcção do Cabo Negro e vou até junto do mar revisitar o Padrão que Diogo Cão aqui deixou. Continua caído e abandonado. Ai Portugal, Portugal! Regressado à estrada vejo a placa branca, escrita a negro. Estrada nº 11. Moçâmedes 73 Km. É difícil de ler porque mais parece um passevite. Não houve ninguém que tivesse arma e que por aqui passasse que não lhe mandasse uma fogachada. Não eram garantidamente caçadores. Esses não desperdiçam cartuchos em caça que não deve ser caçada, quanto mais…
Começa a fazer calor. A estrada é um sem fim de miragens. Ao olhar para Moçâmedes vejo os postes telefónicos todos alinhados, como se fossem soldados em sentido numa parada, no deserto, com a areia a subir-lhes pelas botas. Os cabos é que voaram ou estão caídos ao longo da formatura. Sigo viagem e passo pelo Curoca com os seus arimbos. Estão duas lavadeiras a bater roupa com sabão macaco azul, junto à ponte. E chego ao Pinda que já foi pescaria do Albino da Cunha. Parece-me meio abandonado. As palmeiras teimam em não morrer. Foi daqui que se iniciou a expedição de Angola à contra-costa de Capelo e Ivens. Ataco a subida para finalmente chegar à última cidade do deserto do Namibe. Depois e só lá longe a Baía dos Tigres. E, como é costume, o deserto invadiu completamente o asfalto. Há garruaço. Agora a estrada é toda areia com algumas poças de negro.E vejo Porto Alexandre. O cemitério branco como a cal povoado de cruzes, os depósitos de água preciosa, a central eléctrica, as barreiras de caçoarinas que fazem um semi-círculo. E no seu interior até ao mar o casario rasteiro. Passeio o olhar pela praia. Vejo ao longe a língua de areia onde o Figueiras apanhava as amêijoas. Dou uma passagem pelas pescarias que continuam a escalar peixe em força. As traineiras ainda têm nomes Olhanenses ou de mulheres e de Santas. Um oceano de tarimbas de peixe seco. E passo pelo cinema, o campo do Independente e um ou outro café sempre com um homem encostado à porta, com o olhar perdido no anteontem. E a estátua ao pescador. Como eu admiro e respeito estes Homens do mar. Ainda mais aqui no cu de Judas com milhões de moscas. E muitos putos que vêm da escola e que parecem felizes.
E perguntei pelo Daniel Sangojo, um bailundo contratado, criado e depois amigo do menino Carlos Jorge.Prometeram-me dar notícias. E eu acredito.


terça-feira, janeiro 06, 2009



Carlos Drummond de Andrade



Amor é bicho instruído

Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Ensaio sobre a Cagança


Crowned Crane - Jean Spector

Quatro ignorâncias podem concorrer em um amante, que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor. Ou porque não se conhecesse a si: ou porque não conhecesse a quem amava: ou porque não conhecesse o amor: ou porque não conhecesse o fim onde há-de parar, amando.
Padre António Vieira

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Caderno dos Delírios


silence-kani polat

O cego que afinal tinha uma menina nos olhos
Imagina-me cego! Completamente cego e de bengala a tactear o presente na ponta do focinho de um cão amigo que levo pela trela. Definitivamente cego sento-me num banco do Jardim da Avenida. E as benditas memórias que me assaltam. Não vejo, mas penso e revejo. Por detrás dos óculos negros com aros dourados, quase iguais aos de todos os cegos, o filme da vida faz-me brilhar a menina dos olhos dos meus sonhos.
Imagina-me cego! Fatalmente cego e cansado do passado. Quem teria então olhos para mim? Uma mulher de cabelos ao vento em esculpido corpo de sereia dançando à beirinha do mar? Um sorriso em lábios de mel, olhos de encantar desenganos, desejos de noites de lua cheia e de silêncios pela manhã? Já cansada de tanto me esperar.
Imagina-me cego! Verdadeiramente cego, se tudo isto não fossem miragens, eu garanto que não há cego que não tenha uma menina nos olhos. Porque somos os sonhos que temos!


terça-feira, dezembro 23, 2008