
terça-feira, janeiro 13, 2009
segunda-feira, janeiro 12, 2009
Livro das Crónicas de África
Depois de horas de cavalgada e algumas paragens para dar descanso ao lombo, vislumbro a Manga das Areias, nome porque era conhecida a grande enseada, descoberta por Diogo Cão na sua terceira viagem em 1485.
A Baía dos Tigres já não é uma restinga, mas uma ilha. No dia 14 de Março de 1962, pouco depois de ter sido construído o sistema de captação de águas na Foz do Cunene, o mar vingou-se com forte calema. Atirada de SW, bateu furiosamente a parte de fora do saco da restinga, com ondas de mais de dez metros de altura. Cortou a língua de areia que unia o continente à Baía dos Tigres e rompeu as condutas. Isolou ainda mais os sofridos pescadores que lá viviam e pendurou-lhe mais uma cruz nas costas. Foi um espectáculo enorme, segundo contam. E a que a população diminuta assistiu impotente e temerosa, sempre à espera de que a própria ilha fosse tragada pelo Atlântico. A verdade histórica é que tudo leva a crer que este fenómeno seja periódico. No Mapa Mundi de 1623 de António Sanches é assinalada uma restinga. Na Carta Geográfica da Costa Ocidental desenhada em 1790 por Pinheiro Furtado é uma ilha. Pedro Alexandrino visita-a em 1839 a bordo da corveta Izabel Maria e vê uma restinga. Mas em 1846, nos seus Ensaios Estatísticos, Lopes de Lima já fala outra vez em ilha. Em 1861, os primeiros pescadores Algarvios que aqui chegam encontram uma restinga fechada. A verdade é que desde 1962 até hoje é uma ilha.
Resta-me a esperança de um dia puder rever a Baía dos Tigres. Lembro-me que as edificações assentam em pilares que deixam espaço suficiente para que as ventanias de areias possam prosseguir caminho. O posto sanitário, a escola, a estação radio-telégrafo-postal, a delegação marítima e a igreja de São Martinho, alinham-se de um lado e do outro da única rua cimentada e que serve também de pista de aviação. Nos primeiros tempos o abastecimento de água provinha de cacimbas de água salobra na margem continental da baía. Na praia do lado da baía está o depósito de água que era reabastecido pelo Save ou pelo 28 de Maio, a partir do Curoca ou de Moçâmedes. Água fervida e filtrada em sangas. Os cães Baía dos Tigres eram célebres. Comiam e bebiam o impossível. Nadavam e pescavam de cerco e em matilha, empurrando o peixe para terra. Tinham membranas interdigitais. E bebiam água, passando de manhã cedo a língua suavemente por sobre a água salgada, retirando assim a fina camada de água doce que o cacimbo deixava. Instinto de sobrevivência a quanto obrigas…
Acampamos e dormimos aqui. Para amanhã retomar viagem. Vamos acender a fogueira de lenha de mutiate que algum viajante deixou. Ligar as gambiarras à bateria do jipe. E comer os carapaus de escabeche que nos prepararam e que sabe a manjar dos Deuses a quem anda no deserto.
A noite felizmente está calma. Os Tigres estão a dormir sossegados. Hoje as dunas decidiram dar-nos tréguas. E eu agradeço.
sábado, janeiro 10, 2009
sexta-feira, janeiro 09, 2009
Caderno dos Delírios
Epitáfio
Aqui jaz o pastor dos sonhos, náufrago na derradeira jornada e em desesperado lamento de mãos nuas já madrugada. Amante das ondas e do mar, das dunas com pele de silêncio e das margens quase a chorar na lembrança de um rio imenso. Senhor do voo dos pássaros, das miragens de todas as flores e das manhãs tristes de Março que dançam e gritam as dores.
Aqui jaz o pastor dos sonhos, náufrago na derradeira jornada e em desesperado lamento de mãos nuas já madrugada. Amante das ondas e do mar, das dunas com pele de silêncio e das margens quase a chorar na lembrança de um rio imenso. Senhor do voo dos pássaros, das miragens de todas as flores e das manhãs tristes de Março que dançam e gritam as dores.
Aqui jaz ainda a sonhar, rendido à solidão da memória, o pastor do deserto sem história por mistério de ter morrido sem ter a quem as contar.
Livro das Crónicas de África

Como estou aqui decido continuar rumo ao sul. São cento e oitenta quilómetros até à Baía dos Tigres e depois oitenta até à Foz do Cunene. O ideal são dois jipes e mais gente, para que havendo dificuldades nos possamos acudir. Está traçada a vigem. Vamos pela praia e pernoitamos lá na fronteira com a Namíbia da Costa dos Esqueletos. Depois, havemos de calcorrear o Iona, passar pelo acampamento do Tito na Espinheira e abancar na Gruta do Turra. E finalmente Tambor, S. João do Sul e Moçâmedes. A todo o vapor saímos de madrugada a fazer conta às marés. Reforçados de gasóleo e muita água. E já agora um farnel bem composto onde não falte peixe de escabeche. Vamos a isso!
Deixamos para trás Porto Alexandre, onde perdura, no imaginário de algum mais velho que ainda não sofra de deslembranças, o caso de Maria da Cruz Roldão. Mulher Olhanense, viúva do pescador Tomé do Ó, conhecida como a Regedora. Figura lendária do final do século XIX, ficou célebre como enfrentou os oficiais do navio de guerra Inglês HMS. De bandeira ainda monárquica azul e branca desfraldada, meteu-se num bote e intimou os britânicos a retirar das águas portuguesas.
São dunas e mar e um mar de dunas até à baía dos Tigres. Diz-se que quem ama o deserto ama o mar. E aqui estão os dois elementos em toda a sua grandeza e esplendor. É de matar ou então só cegar incautos esta prenhidão tamanha. Um mar imenso a bombordo que abalroa de frente com a vastidão do deserto a estibordo numa toada que parece de choro sofrido e repetido. Umas vezes vamos a patinhar na água e outras voamos na crista das dunas. Com os pneus meio vazios cavalgamos o tempo numa luta insistente e teimosa contra as vagas de areia solta. Como um veleiro no mar alto a cavar ondas sem parança. Não vemos vivalma. Apenas um garajau tonto e desorientado, perdido da sua costumeira rota. E restos de velhos navios que o mar piedosamente sepultou na praia. A espuma deste oceano, soprada pelas ondas, adormece e morre na areia. Esta terra não foi feita nem para gente nem para bichos. Só o vento consegue viver aqui. E mesmo assim o seu queixume é constante e bastas vezes violento. Há quem diga que a denominação Baía dos Tigres se deve ao ruído enervante de fera molestada que o redemoinhar da areia provoca no cone superior das dunas.
O sol sente desejos de beijar o dia. O cacimbo cerrado faz-lhe frente, mas o astro vence-o transbordando para além do horizonte o seu vermelho fogo de paixão. Deita então a cabeça no mar e espreguiça-se por sobre as dunas. Como que a querer reanimar este fim do mundo onde nem o mais triste e solitário dos tigres resistiria.
quinta-feira, janeiro 08, 2009
Fiama Hasse Pais Brandão

Perguntai ao muro
Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?
Ensaio sobre a Cagança
quarta-feira, janeiro 07, 2009
Livro das Crónicas de África
Hoje vou a Porto Alexandre. Por aquela estrada que é uma recta só, com uma curva no meio, porém suave. E que é costume ser engolida pelas areias e asfaltada de miragens. Saio daqui bem amanhece, depois de um café bom de cafeteira. Sem borra. E vou andando até à Subida Grande. Devagar que nestas terras a pressa não tem pressa. Saio cinquenta metros da estrada, virando à esquerda, para pisar mais uma vez o tapete de ágatas de todas as cores. Retomo a estrada. Passo pela casa que já teve portas, janelas, tecto, paredes pintadas e até cantoneiro mesmo ele próprio.
Chego ao Buraco. Estamos a meio caminho dos noventa e três quilómetros que unem Moçâmedes a Porto Alexandre. Os mais velhos, no século antepassado, demoravam tanto tempo na viagem que paravam aqui para almoçar. Merendavam debaixo duma espinheira que ainda cá está de pé e a que ironicamente chamaram de Hotel do Buraco. Algumas vezes pernoitavam ou resguardavam-se, pois o vento era tanto que a estrada, ainda não asfaltada, simplesmente levava sumiço. Trilhavam nova porque a caminhar se faz o caminho.
Paro na direcção do Cabo Negro e vou até junto do mar revisitar o Padrão que Diogo Cão aqui deixou. Continua caído e abandonado. Ai Portugal, Portugal! Regressado à estrada vejo a placa branca, escrita a negro. Estrada nº 11. Moçâmedes 73 Km. É difícil de ler porque mais parece um passevite. Não houve ninguém que tivesse arma e que por aqui passasse que não lhe mandasse uma fogachada. Não eram garantidamente caçadores. Esses não desperdiçam cartuchos em caça que não deve ser caçada, quanto mais…
Começa a fazer calor. A estrada é um sem fim de miragens. Ao olhar para Moçâmedes vejo os postes telefónicos todos alinhados, como se fossem soldados em sentido numa parada, no deserto, com a areia a subir-lhes pelas botas. Os cabos é que voaram ou estão caídos ao longo da formatura. Sigo viagem e passo pelo Curoca com os seus arimbos. Estão duas lavadeiras a bater roupa com sabão macaco azul, junto à ponte. E chego ao Pinda que já foi pescaria do Albino da Cunha. Parece-me meio abandonado. As palmeiras teimam em não morrer. Foi daqui que se iniciou a expedição de Angola à contra-costa de Capelo e Ivens. Ataco a subida para finalmente chegar à última cidade do deserto do Namibe. Depois e só lá longe a Baía dos Tigres. E, como é costume, o deserto invadiu completamente o asfalto. Há garruaço. Agora a estrada é toda areia com algumas poças de negro.E vejo Porto Alexandre. O cemitério branco como a cal povoado de cruzes, os depósitos de água preciosa, a central eléctrica, as barreiras de caçoarinas que fazem um semi-círculo. E no seu interior até ao mar o casario rasteiro. Passeio o olhar pela praia. Vejo ao longe a língua de areia onde o Figueiras apanhava as amêijoas. Dou uma passagem pelas pescarias que continuam a escalar peixe em força. As traineiras ainda têm nomes Olhanenses ou de mulheres e de Santas. Um oceano de tarimbas de peixe seco. E passo pelo cinema, o campo do Independente e um ou outro café sempre com um homem encostado à porta, com o olhar perdido no anteontem. E a estátua ao pescador. Como eu admiro e respeito estes Homens do mar. Ainda mais aqui no cu de Judas com milhões de moscas. E muitos putos que vêm da escola e que parecem felizes.
E perguntei pelo Daniel Sangojo, um bailundo contratado, criado e depois amigo do menino Carlos Jorge.Prometeram-me dar notícias. E eu acredito.
terça-feira, janeiro 06, 2009
Carlos Drummond de Andrade
Ensaio sobre a Cagança

Crowned Crane - Jean Spector
Quatro ignorâncias podem concorrer em um amante, que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor. Ou porque não se conhecesse a si: ou porque não conhecesse a quem amava: ou porque não conhecesse o amor: ou porque não conhecesse o fim onde há-de parar, amando.
Padre António Vieira
domingo, janeiro 04, 2009
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Caderno dos Delírios

silence-kani polat
O cego que afinal tinha uma menina nos olhos
Imagina-me cego! Completamente cego e de bengala a tactear o presente na ponta do focinho de um cão amigo que levo pela trela. Definitivamente cego sento-me num banco do Jardim da Avenida. E as benditas memórias que me assaltam. Não vejo, mas penso e revejo. Por detrás dos óculos negros com aros dourados, quase iguais aos de todos os cegos, o filme da vida faz-me brilhar a menina dos olhos dos meus sonhos.
Imagina-me cego! Fatalmente cego e cansado do passado. Quem teria então olhos para mim? Uma mulher de cabelos ao vento em esculpido corpo de sereia dançando à beirinha do mar? Um sorriso em lábios de mel, olhos de encantar desenganos, desejos de noites de lua cheia e de silêncios pela manhã? Já cansada de tanto me esperar.
Imagina-me cego! Verdadeiramente cego, se tudo isto não fossem miragens, eu garanto que não há cego que não tenha uma menina nos olhos. Porque somos os sonhos que temos!
Imagina-me cego! Verdadeiramente cego, se tudo isto não fossem miragens, eu garanto que não há cego que não tenha uma menina nos olhos. Porque somos os sonhos que temos!
terça-feira, dezembro 23, 2008
Ensaio sobre a Cagança
António Gedeão

Lágrima de preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
segunda-feira, dezembro 22, 2008
Copy & Past
"Um dos novos desportos para preencher o vazio da cabeça é o de vigiar os hábitos de Barack Obama, como o de fumar. Os parvinhos elegantes, de ideologia tetraplégica, e as tias do século passado ficaram embasbacados com a novidade – Obama fuma; como é que ele vai fazer na Casa Branca, onde não se pode fumar? Naturalmente, vem até à porta das traseiras onde escapará dos moralistas.
Interrogado pela imprensa, o presidente americano lá se justificou: "Mas olhem que tento ter uma vida mais saudável..." Para começar, estar no poder não é nada saudável. Depois, desde que inventaram os políticos com "uma vida saudável" que deixámos de ter bons políticos. Um bom político precisa de um certo suplemento de vício.
Olhem para a União Europeia e confirmem: saudáveis, sim, mas uma merda."
AQUI!
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