
segunda-feira, janeiro 12, 2009
sábado, janeiro 10, 2009
sexta-feira, janeiro 09, 2009
Caderno dos Delírios
Epitáfio
Aqui jaz o pastor dos sonhos, náufrago na derradeira jornada e em desesperado lamento de mãos nuas já madrugada. Amante das ondas e do mar, das dunas com pele de silêncio e das margens quase a chorar na lembrança de um rio imenso. Senhor do voo dos pássaros, das miragens de todas as flores e das manhãs tristes de Março que dançam e gritam as dores.
Aqui jaz o pastor dos sonhos, náufrago na derradeira jornada e em desesperado lamento de mãos nuas já madrugada. Amante das ondas e do mar, das dunas com pele de silêncio e das margens quase a chorar na lembrança de um rio imenso. Senhor do voo dos pássaros, das miragens de todas as flores e das manhãs tristes de Março que dançam e gritam as dores.
Aqui jaz ainda a sonhar, rendido à solidão da memória, o pastor do deserto sem história por mistério de ter morrido sem ter a quem as contar.
Livro das Crónicas de África

Como estou aqui decido continuar rumo ao sul. São cento e oitenta quilómetros até à Baía dos Tigres e depois oitenta até à Foz do Cunene. O ideal são dois jipes e mais gente, para que havendo dificuldades nos possamos acudir. Está traçada a vigem. Vamos pela praia e pernoitamos lá na fronteira com a Namíbia da Costa dos Esqueletos. Depois, havemos de calcorrear o Iona, passar pelo acampamento do Tito na Espinheira e abancar na Gruta do Turra. E finalmente Tambor, S. João do Sul e Moçâmedes. A todo o vapor saímos de madrugada a fazer conta às marés. Reforçados de gasóleo e muita água. E já agora um farnel bem composto onde não falte peixe de escabeche. Vamos a isso!
Deixamos para trás Porto Alexandre, onde perdura, no imaginário de algum mais velho que ainda não sofra de deslembranças, o caso de Maria da Cruz Roldão. Mulher Olhanense, viúva do pescador Tomé do Ó, conhecida como a Regedora. Figura lendária do final do século XIX, ficou célebre como enfrentou os oficiais do navio de guerra Inglês HMS. De bandeira ainda monárquica azul e branca desfraldada, meteu-se num bote e intimou os britânicos a retirar das águas portuguesas.
São dunas e mar e um mar de dunas até à baía dos Tigres. Diz-se que quem ama o deserto ama o mar. E aqui estão os dois elementos em toda a sua grandeza e esplendor. É de matar ou então só cegar incautos esta prenhidão tamanha. Um mar imenso a bombordo que abalroa de frente com a vastidão do deserto a estibordo numa toada que parece de choro sofrido e repetido. Umas vezes vamos a patinhar na água e outras voamos na crista das dunas. Com os pneus meio vazios cavalgamos o tempo numa luta insistente e teimosa contra as vagas de areia solta. Como um veleiro no mar alto a cavar ondas sem parança. Não vemos vivalma. Apenas um garajau tonto e desorientado, perdido da sua costumeira rota. E restos de velhos navios que o mar piedosamente sepultou na praia. A espuma deste oceano, soprada pelas ondas, adormece e morre na areia. Esta terra não foi feita nem para gente nem para bichos. Só o vento consegue viver aqui. E mesmo assim o seu queixume é constante e bastas vezes violento. Há quem diga que a denominação Baía dos Tigres se deve ao ruído enervante de fera molestada que o redemoinhar da areia provoca no cone superior das dunas.
O sol sente desejos de beijar o dia. O cacimbo cerrado faz-lhe frente, mas o astro vence-o transbordando para além do horizonte o seu vermelho fogo de paixão. Deita então a cabeça no mar e espreguiça-se por sobre as dunas. Como que a querer reanimar este fim do mundo onde nem o mais triste e solitário dos tigres resistiria.
quinta-feira, janeiro 08, 2009
Fiama Hasse Pais Brandão

Perguntai ao muro
Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?
Ensaio sobre a Cagança
quarta-feira, janeiro 07, 2009
Livro das Crónicas de África
Hoje vou a Porto Alexandre. Por aquela estrada que é uma recta só, com uma curva no meio, porém suave. E que é costume ser engolida pelas areias e asfaltada de miragens. Saio daqui bem amanhece, depois de um café bom de cafeteira. Sem borra. E vou andando até à Subida Grande. Devagar que nestas terras a pressa não tem pressa. Saio cinquenta metros da estrada, virando à esquerda, para pisar mais uma vez o tapete de ágatas de todas as cores. Retomo a estrada. Passo pela casa que já teve portas, janelas, tecto, paredes pintadas e até cantoneiro mesmo ele próprio.
Chego ao Buraco. Estamos a meio caminho dos noventa e três quilómetros que unem Moçâmedes a Porto Alexandre. Os mais velhos, no século antepassado, demoravam tanto tempo na viagem que paravam aqui para almoçar. Merendavam debaixo duma espinheira que ainda cá está de pé e a que ironicamente chamaram de Hotel do Buraco. Algumas vezes pernoitavam ou resguardavam-se, pois o vento era tanto que a estrada, ainda não asfaltada, simplesmente levava sumiço. Trilhavam nova porque a caminhar se faz o caminho.
Paro na direcção do Cabo Negro e vou até junto do mar revisitar o Padrão que Diogo Cão aqui deixou. Continua caído e abandonado. Ai Portugal, Portugal! Regressado à estrada vejo a placa branca, escrita a negro. Estrada nº 11. Moçâmedes 73 Km. É difícil de ler porque mais parece um passevite. Não houve ninguém que tivesse arma e que por aqui passasse que não lhe mandasse uma fogachada. Não eram garantidamente caçadores. Esses não desperdiçam cartuchos em caça que não deve ser caçada, quanto mais…
Começa a fazer calor. A estrada é um sem fim de miragens. Ao olhar para Moçâmedes vejo os postes telefónicos todos alinhados, como se fossem soldados em sentido numa parada, no deserto, com a areia a subir-lhes pelas botas. Os cabos é que voaram ou estão caídos ao longo da formatura. Sigo viagem e passo pelo Curoca com os seus arimbos. Estão duas lavadeiras a bater roupa com sabão macaco azul, junto à ponte. E chego ao Pinda que já foi pescaria do Albino da Cunha. Parece-me meio abandonado. As palmeiras teimam em não morrer. Foi daqui que se iniciou a expedição de Angola à contra-costa de Capelo e Ivens. Ataco a subida para finalmente chegar à última cidade do deserto do Namibe. Depois e só lá longe a Baía dos Tigres. E, como é costume, o deserto invadiu completamente o asfalto. Há garruaço. Agora a estrada é toda areia com algumas poças de negro.E vejo Porto Alexandre. O cemitério branco como a cal povoado de cruzes, os depósitos de água preciosa, a central eléctrica, as barreiras de caçoarinas que fazem um semi-círculo. E no seu interior até ao mar o casario rasteiro. Passeio o olhar pela praia. Vejo ao longe a língua de areia onde o Figueiras apanhava as amêijoas. Dou uma passagem pelas pescarias que continuam a escalar peixe em força. As traineiras ainda têm nomes Olhanenses ou de mulheres e de Santas. Um oceano de tarimbas de peixe seco. E passo pelo cinema, o campo do Independente e um ou outro café sempre com um homem encostado à porta, com o olhar perdido no anteontem. E a estátua ao pescador. Como eu admiro e respeito estes Homens do mar. Ainda mais aqui no cu de Judas com milhões de moscas. E muitos putos que vêm da escola e que parecem felizes.
E perguntei pelo Daniel Sangojo, um bailundo contratado, criado e depois amigo do menino Carlos Jorge.Prometeram-me dar notícias. E eu acredito.
terça-feira, janeiro 06, 2009
Carlos Drummond de Andrade
Ensaio sobre a Cagança

Crowned Crane - Jean Spector
Quatro ignorâncias podem concorrer em um amante, que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor. Ou porque não se conhecesse a si: ou porque não conhecesse a quem amava: ou porque não conhecesse o amor: ou porque não conhecesse o fim onde há-de parar, amando.
Padre António Vieira
domingo, janeiro 04, 2009
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Caderno dos Delírios

silence-kani polat
O cego que afinal tinha uma menina nos olhos
Imagina-me cego! Completamente cego e de bengala a tactear o presente na ponta do focinho de um cão amigo que levo pela trela. Definitivamente cego sento-me num banco do Jardim da Avenida. E as benditas memórias que me assaltam. Não vejo, mas penso e revejo. Por detrás dos óculos negros com aros dourados, quase iguais aos de todos os cegos, o filme da vida faz-me brilhar a menina dos olhos dos meus sonhos.
Imagina-me cego! Fatalmente cego e cansado do passado. Quem teria então olhos para mim? Uma mulher de cabelos ao vento em esculpido corpo de sereia dançando à beirinha do mar? Um sorriso em lábios de mel, olhos de encantar desenganos, desejos de noites de lua cheia e de silêncios pela manhã? Já cansada de tanto me esperar.
Imagina-me cego! Verdadeiramente cego, se tudo isto não fossem miragens, eu garanto que não há cego que não tenha uma menina nos olhos. Porque somos os sonhos que temos!
Imagina-me cego! Verdadeiramente cego, se tudo isto não fossem miragens, eu garanto que não há cego que não tenha uma menina nos olhos. Porque somos os sonhos que temos!
terça-feira, dezembro 23, 2008
Ensaio sobre a Cagança
António Gedeão

Lágrima de preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
segunda-feira, dezembro 22, 2008
Copy & Past
"Um dos novos desportos para preencher o vazio da cabeça é o de vigiar os hábitos de Barack Obama, como o de fumar. Os parvinhos elegantes, de ideologia tetraplégica, e as tias do século passado ficaram embasbacados com a novidade – Obama fuma; como é que ele vai fazer na Casa Branca, onde não se pode fumar? Naturalmente, vem até à porta das traseiras onde escapará dos moralistas.
Interrogado pela imprensa, o presidente americano lá se justificou: "Mas olhem que tento ter uma vida mais saudável..." Para começar, estar no poder não é nada saudável. Depois, desde que inventaram os políticos com "uma vida saudável" que deixámos de ter bons políticos. Um bom político precisa de um certo suplemento de vício.
Olhem para a União Europeia e confirmem: saudáveis, sim, mas uma merda."
AQUI!
sábado, dezembro 20, 2008
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