sábado, junho 28, 2008

Almocreve das Petas

"O Almocreve de Petas ou a Moral Disfarçada da Vida", foi um periódico publicado em 1798 por José Daniel Rodrigues da Costa. Em 1910 sob direcção de Couto Brandão surge "O Almocreve das Petas".
O almocreve era uma pessoa que conduzia animais de uma terra para outra. Numa época de comunicações limitadas, os almocreves eram essenciais como agentes de comunicação inter-comunitária. Lampião, o temível cangaceiro, foi almocreve.
As petas são mentiras, mentirolas, patranhas, contos, logros...

Qual é o Mal? (1)

segunda-feira, junho 23, 2008

CADERNO DOS DELÍRIOS

Posta que me foi a duvida, despachei o embaraço de perceber se é preferível ir para a "guerra" com um traidor a ir com um tolo. O traidor dá-nos um tiro no coração a qualquer instante. O tolo, em todas as ocasião em que tropeça nos atacadores, tantos dá até que nos acerta com um fogacho na cabeça. A traidores e a tolos, ou a tolos traidores, quando me falam em não fechar portas, indico-lhes sempre a da rua. E a minha rua é um rio de enxurradas.

domingo, junho 22, 2008

INCONFIDÊNCIAS # 4

RECANDIDATURA: Carlos Encarnação pôs as cartas na mesa. Anunciou a intenção de se recandidatar à Presidência da Câmara de Coimbra. Para um político experiente pode parecer ter cometido o pequeno descuido de declarar que colocava a decisão nas mãos do partido. O que nos tempos que correm, no concelho em que estamos e do partido de que falamos seria escusado. Mas as aparências iludem. No mais, este pré-aviso tem três vantagens óbvias. Começa por acalmar as hostes e toca a reunir as tropas. Depois, dá espaço para prevenir atempadamente desordens futuras e explicar convenientemente azedumes internos. Finalmente, põe os potenciais candidatos de tão fracturada oposição a pensar duas vezes. É que há por aí heróis a menos, com medo e vergonha de perder a mais. A não ser por garantida manjedoura. Claro! Mas, verdadeiramente importante, mostra conhecer bem a paróquia – o que não é novidade – colocando já em sentido todos, e são tantos, os que gostam de estar perto do poder ou de, pelo menos, não lhe desagradar. Tudo simples e já!
BUZINÃO: As vozes do PS no Executivo e na Assembleia Municipais, mesmo quando concertadas, não passam de um pífio buzinão. Pina Prata, pelos motivos que se conhecem, é a voz critica mais audível à acção do Presidente. Por agora, quero que fique registado que não escondo, nem nunca escondi, a nossa amizade pessoal. O que não me impede de o reprovar e até censurar sempre que julgo oportuno. O que não o impede de agir politicamente como bem entende. Tem uma estratégia que me parece óbvia e de que a seu tempo falarei.
OS SETE SAPATOS SUJOS: estou a ler o novo romance de Mia Couto “Venenos de Deus, Remédios do Diabo”. Da sua obra recordo as “Estórias Abensonhadas” e “A Varanda do Frangipani”. Mas, nestes dias em que o falatório politiqueiro não desgruda do nível do chinelo, convinha reler uma sua Oração de Sapiência. “…Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico. O primeiro sapato - a ideia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas. …Antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.”
CAIXA DE PANDORA: à boleia dos camionistas seguem-se os reboques, os agricultores, os pescadores e o que mais se verá. O governo cedeu, possuído da síndrome da ponte com os irmãos Pinto, e continuará a ceder. Eles lá sabem, mas não escapam do que fizeram a Cavaco.
BOM POVO: é estimulante a publicidade da Galp. Um povo ordeiramente esforçado empurra o autocarro da nossa selecção até à Áustria. Com tamanha desfaçatez, só falta mesmo dizer que, se não quiserem assim, paguem a gasolina.
GENERACIÓN Y: “es un Blog inspirado en gente como yo, con nombres que comienzan o contienen una "y griega". Nacidos en la Cuba de los años 70s y los 80s, marcados por las escuelas al campo, los muñequitos rusos, las salidas ilegales y la frustración” (Yoani Sánchez, no Generación Y)

sábado, junho 21, 2008

A propósito

já que se há-de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas
(Clarice Lispector)
Lançamos o barco.
Sonhamos a viagem;
quem viaja é sempre o mar.

Mia Couto

sábado, junho 14, 2008

Fernando Pessoa

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.

[Álvaro de Campos. Tabacaria]

segunda-feira, junho 09, 2008

INCONFIDÊNCIAS # 3

DIREITO AO CONTRADITÓRIO: Veremos se o PSD acaba com a guerrilha interna… (Ana Gomes). Veremos se o PS suporta o agravamento da guerrilha interna e da guerra externa.
O FACTOR MANUELA: Manuela Ferreira Leite (MFL) é a nova líder e não deve ser menosprezada. É a primeira mulher à frente de um partido. Vai mudar a forma de fazer política, corrigindo o estilo e retirando ruído. Já mostrou sensibilidade, no pouco que disse, para os temas centrais da politica que interessa. Introduz credibilidade e juízo no PSD. Tudo o que a direita aprecia e o centrão estima, como alternativa ao actual estado das coisas. Paulo Portas já deve ter começado a perceber que vai pregar no deserto. E Sócrates sabe que vai ter que dar corda aos sapatos, porque um ano em politica é uma eternidade. Enquanto uns vão reflectir, outros disponibilizaram-se para o que possa vir por aí, mas à espreita de próxima oportunidade. Mesmo que, como disse o jovem Ângelo Correia, cheire a bafio. E nem vale a pena tentar perceber como é que o professor Patinha entregou mais de 2000 assinaturas, mas só teve 309 votos.
BARBAS DE MOLHO: naquele momento das declarações de Menezes, depois de votar, é dado o tom para o que se seguirá. O democrata que jurou conter-se durante e depois da campanha, foi o que se viu e ouviu. Falou da "canalha", dos "sem carácter", de “outros da mesma laia" e "daquele senhor de barbas". Por maior que seja a vontade de MFL em federar o PPD/PSD, a opção é não ficar refém de ninguém, incluindo os apoiantes da primeira fila, porque há quem só tenha uma ideia fixa, mesmo que dissimulada. Transformar a vida da senhora num verdadeiro inferno ou, porque há um cheirinho a poder no ar, mantê-la em lume brando.
REENCARNAÇÃO: tudo isto, mais o que se passar no Congresso e até às Europeias, deixa muita e boa gente a pensar no que fará Carlos Encarnação. Os da casa e os vizinhos esperam para ver, com desassossego. O PS local fará sondagens e criará um gabinete de reflexão sobre tão extraordinário dilema. Todos e cada um, à sua maneira, passarão pela angustia cantada por Chico Buarque “diz que Deus diz que dá, diz que Deus dará, e se Deus não dá? O que é que a gente faz?” Por mim, como eu sei e me diria o Presidente, é muito simples!
LIGA DOS ULTIMOS: neste programa em que as estrelas também são os adeptos, um jogo do Farense era intercalado por imagens de um adepto-pastor que “sua do cérebro”. Foi deprimente ver o clube mais representativo de uma região, e que já ganhou uma Taça de Portugal, a jogar nos distritais. E posto ao nível do Antes e do Mamarrosa. Nunca é tarde para relembrar que, no futebol, há decisões que são mortais.
MARQUISES: por esta altura do Euro, como muitos portugueses, vou colocar a bandeira na janela. Aos que acham que se trata de uma atitude provinciana, recomenda-se que forrem as suas marquises de alumínio com bandeiras olímpicas compradas nas lojas chinesas.
OUT OF AFRICA: há quem considere que Sydney Pollack não foi um génio e que nenhuma das suas obras vai ficar para a história do cinema. A mim basta-me “África Minha” e “Os Cavalos Também se Abatem”, para que ele se torne inesquecível.
ARGUMENTO INTERESSANTE: “o filme (A Ultima Cartada) não contém qualquer sátira à candidatura de Pedro Santana Lopes, apesar do título...” (Gonçalo Capitão, no Ainda Há Lodo no Cais)

sábado, maio 31, 2008

OUT OF AFRICA

INCONFIDÊNCIAS # 2

A MARATONA: é inaceitável que a Região Centro seja cada vez mais esmagada entre a macrocefalia de Lisboa e o colosso do Norte. Coimbra já percebeu que nunca mais nada lhe é oferecido de bandeja e que, portanto, o combate à tenaz do concentracionismo é uma maratona. O mesmo é dizer que não haverá dores nem fadiga que nos possam fazer vacilar ou soçobrar, por maior e mais sofrido que seja o percurso. A Região Centro é a única sem aeroporto. Portugal terá três aeroportos a Sul do Tejo - Alcochete, Beja e Faro - e um a Norte do Douro. O mínimo que agora se exige, depois da opção por Alcochete em detrimento da Ota, é a abertura da Base Aérea de Monte Real ao tráfego civil. Por outro lado, só em Lisboa e no Porto é que os transportes são subsidiados pelo Estado. Quando a governança anuncia o congelamento dos passes sociais, obriga-nos a continuar a pagar os nossos, sem apoios estatais, e o aumento do défice dos outros. Talvez José devesse ler Cícero, quando bem disse que nem tudo o que é lícito é honesto.
ROSA DE HIROSHIMA: os vereadores do PS solicitaram aos Tribunais a perda de mandato do Presidente da Câmara, a propósito do processo EuroStadium. Fizeram-no pela calada, apresentando tarde os fundamentos jurídicos. Sem justificações politicas, tanto mais que ajudaram a aprová-lo, confirmam desorientação estratégica e comportamentos erráticos. Mas, não mais que de repente, decidem mostrar serviço. Lançaram a bomba atómica, para disfarçarem a sua tão prolongada inércia.
MEMÓRIA: é tão merecida quanto comovente, a homenagem que os amigos e os filhos de Francisco Lucas Pires lhe prestam quando são passados dez anos sobre a sua morte. Nestes dias que correm velozes fazem falta óculos de ver ao longe, como li algures a propósito deste Homem de Coimbra.
LANTERNA VERMELHA: no relatório sobre a situação social na União Europeia diz-se que, qualquer que seja a forma de medir a desigualdade de rendimentos, Portugal é invariavelmente o ultimo e onde a pobreza é mais extrema. Mesmo que se encontrem culpados e se amanhem desculpas, há números que nos envergonham.
O RISO DA HIENA: somos tocados pelas imagens que nos chegam da África do Sul. O nosso olhar pasma-se quando imigrantes são espancados até à morte ou queimados vivos, ao som do júbilo dos seus carrascos. Não são sorrisos africanos à volta de uma fogueira sob um céu azul estrelar. Há ali risos de hienas que quase igualam tamanha xenofobia ao antigo apartheid.
CABOS DE GUERRA: cada vez mais as eleições nos partidos não se ganham pelo passado apreciável ou pelo futuro promissor, por falar eloquentemente ou estar calado prudentemente. Este é o tempo em que contar espingardas, ou sejam, votos dos militantes, só quer dizer mesmo contabilizar caciques.
NOVO ENCANTO: “Depois das orações de mãos dadas no balneário, sabemos agora que Scolari "anima os jogadores" (SIC, sic) com a música de Roberto Leal. Não tem como não dar certo.” (Pedro Caeiro, no Mar salgado)

terça-feira, maio 27, 2008

INCONFIDÊNCIAS # 1

DECLARAÇÃO DE INTERESSES: ao iniciar esta coluna devo confessar que não sou imparcial ou neutro, nem pretendo sê-lo. E a peregrina ideia que não é possível questionar o poder, onde uma vez por outra me incluo como membro da Assembleia Municipal, não faz sentido para quem cultiva um espírito livre. Fica assim feito o aviso à navegação, sobretudo para os que não se esforçam no exercício recatado da defesa dos direitos dos cidadãos. Não sou dissidente, porque reconheço e tento cumprir com brio a missão para que aceitei ser eleito. Mas também não sendo cego nem fingidor, serei provocador quanto baste e quando necessário, porque eterno inconformado com o cinzentismo que grassa pela paróquia. Mesmo não metendo a todos no mesmo saco, em Coimbra parece querer morrer-se de nostalgia e haverá até quem declare a sua decadência. Ora, reafirmo aqui a minha crença nesta terra e nestas gentes que moldam o progresso com os olhos postos no futuro.
QUEIMAR A QUEIMA: ou a Queima das Fitas se reforma, mantendo imutável o núcleo essencial da sua identidade, ou passa à história porque cada vez mais desinteressante para os não estudantes. Há assuntos demasiadamente sérios para serem tratados por um qualquer tremendista que se albarda da importância que ninguém lhe reconhece. Convém relembrar que a queima renasceu em 80 contagiada pelo apoio do povo anónimo e o entusiasmo incondicional dos antigos estudantes. Mas tornar-se-á cada vez mais irrelevante, quase uma private party, enquanto os dirigentes não perceberem que é fundamental reconquistar-nos a todos para a participação. E isto já lá não vai só com reajustes e muito menos com água de rosas.
DIVINA PROVIDÊNCIA: aceito pragmaticamente a ideia de que na política actual, principalmente na local, possa haver rigidez estratégica mas muita flexibilidade táctica. É o que me ocorre sempre que vejo o vereador do CDS a co-habitar com o da CDU, unidos na mesma luta. Por Coimbra, claro! Aliás, Frei Beto já tinha declarado que um cristão é um comunista, mesmo que o não queira e que um comunista é um cristão, mesmo que não creia.
COIMBRINHAS E COIMBRÕES: é de todo o interesse ler os tópicos do Professor Gomes Canotilho para uma intervenção sobre esse tema, retirados das conversas na Quinta das Lágrimas. Até para que se possa discordar de quem pensa e sabe pensar nos assuntos.
É SÓ FUMAÇA: alguém pediu a José Sócrates para deixar de fumar? Tão só lhe exigíamos que cumprisse a lei que tanto alardeou. Porque o exemplo é fundamental, sobretudo quando provindo de um fundamentalista. O mesmo que teimou na co-incineração em Souselas.
CALDOS DE GALINHA: nas directas para a liderança do PSD é de toda a prudência esperar para ver. E sobretudo não desdenhar da sabedoria popular de que até ao lavar dos cestos é vindima. Para finalmente ainda confirmar se o príncipe eleito ultrapassa o rubicão dos seis meses.
VELHA ACADEMIA: “Uma pessoa cria um blog … e de repente transforma-se num local onde se lava roupa suja em forma de anonimato.” (Manuel da Gaita, no Piolho da Solum)

quarta-feira, abril 16, 2008

Caderno dos Delírios

A experiência dos caçadores no deserto do Kalahari aconselha, às vezes, a praticar a caça de espera. Esta modalidade não é muito do meu agrado, pois ficar empoleirado numa mutala, para que a onça saia ou seja obrigada a sair da toca, mostrando-se por inteiro, obriga frequentemente a longas e desconfortáveis jornadas.

quinta-feira, abril 10, 2008

Ensaio sobre a Cagança

Aponto no meu caderno:
O tempo ensinou-me e o momento comprova que a paciência requer muita prática.

segunda-feira, março 17, 2008

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Ensaio sobre a Cagança

Aponto no meu caderno:
A propósito de causas, que não de outras cousas, eu pecador me confesso - Luto sempre contra as tentações, só que elas ganham sempre!...

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

terça-feira, janeiro 29, 2008

segunda-feira, janeiro 14, 2008

O IMORTAL

Há trinta anos eu pensava que era imortal. Nós passamos a vida a olhar para a frente, mas só a entendemos quando olhamos para trás. E aí, o que faz a diferença, resume-se a pessoas e emoções.
Há trinta anos eu gostaria que me tivessem falado do factor tempo. À medida que olho pelo retrovisor não me arrependo dos erros, mas das oportunidades perdidas e das palavras não ditas.
Há trinta anos eu desconhecia o sentido do equilíbrio. Só agora descobri que significa aprender a dizer não. Ensinaram-nos a dizer sim por educação. Mas dizer não, quando se quer dizer não, é o maior economizador de tempo da nossa vida.
Há trinta anos eu não sabia que devia manter-me vivo o suficiente para ter sorte. Os anos deixam rugas na pele, mas a perda de entusiasmo deixa rugas na alma. Eu gostaria que me tivessem dito para seguir os sonhos, porque o importante é sermos nós mesmos e não o que os outros esperam. Que não nos devemos impressionar se nos juram que os sonhos são imprudentes. Ora essa! Eles não foram criados para serem prudentes, mas para darem sentido à nossa vida.
Há trinta anos eu não sabia distinguir um contratempo de um revés ou de uma tragédia. A maioria das coisas más da vida são contratempos. Os reveses são mais sérios, mas corrigem-se. As tragédias são diferentes e só quando passamos por elas é que as sentimos verdadeiramente. Assim, todos os acontecimentos devem ser sempre colocados em termos de proporção e perspectiva.
Há trinta anos eu não tinha cuidado com o síndrome das pessoas cinzentas. As que se adaptam e não contestam. Mas aprendi desde então a não ter medo de me opor e ser controverso. Faço alguns inimigos, porque não me dobro ou vendo, mas faço melhores amigos. É essencial ter a coragem de arriscar, porque uma vida sem perigos leva a arrependimentos tardios. E não ter receio de ser diferente dos que nos rodeiam, porque não há respostas únicas para este mundo.
Há trinta anos disseram-me que trabalhar no duro era o mais importante, mas não me ensinaram a saborear o aroma das flores. Por isso eu vos digo: sonhem, cantem e mantenham o sentido de humor. É o que faço, para além de escalar montanhas, nadar contra a correnteza dos rios, andar descalço por sobre as folhas caídas no Outono, divertir-me neste carrossel da vida e às vezes rir-me de mim mesmo quando me olho ao espelho de manhã.
Assim sendo, tenho muitos mais questões reais, mas muito menos problemas imaginários.

terça-feira, janeiro 08, 2008

quarta-feira, janeiro 02, 2008

quinta-feira, outubro 25, 2007

terça-feira, outubro 16, 2007

Uma borboleta com uma flor no cabelo

Dezasseis é o mais que perfeito dos números imperfeitos. Dezasseis é hoje, mas foi um dia destes. Dezasseis não é um, são dois. Dezasseis soma, multiplica, divide e às vezes subtrai. O sete, o quatorze, o vinte e um parecem ter relações cósmicas. Agora, dezasseis não. Não dá com os dias do ano ou da semana. Não dá com horas nem com minutos. E também não rima com nada que se saiba. E acredito que até gostasse. Dois rima com depois. Cinco com brinco. Agora dezasseis? Talvez se puser uma flor no cabelo fique com o ar da mais livre das borboletas. A não ser que reste prisioneira entre as folhas de um livro de lembranças e outras desesperanças.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Livro das Preciosidades

Quando desaparece um amigo até parece que o mar todo, de infinitas marés, nos bate de frente. Quando morre um amigo parece que desacontece a réstia de esperança na nossa pequena pátria das emoções maiores. Que nos importa saber se a eternidade está a ocidente ou se põe a oriente? Até parece que se apagam as luzes da nossa cidade muralhada. Nem mesmo há pirilampos que se atrevam em noites como assim.
E acontece ser o tempo para então passearmos os dois, sendo que eu o faço, tão só, viajando para dentro de mim!

quarta-feira, outubro 03, 2007

A minha alma

A minha alma sou eu e os meus navios de partida, mais o cais da despedida e as âncoras de infinitos desesperos. E também os meus silêncios, mais o corpo prisioneiro dos cansaços e das memórias que me traem. Eu sei que a minha alma sou eu e os meus caprichos, mais todos os bichos que venço e o diabo feito orgulho que não dispenso. E também os meus olhares, mais todos os beijos que roubo e o perfume encantado desses lugares. A minha alma sou eu e os meus rios interiores, mais as margens que os estreitam e um piano que toca só na vazante dos amores. E também os meus braços que não param de remar, mais os sonhos de que me convenço e o destino que se abre, assim seja raso o mar.

domingo, setembro 30, 2007

Ensaio sobre a Cagança

Aponto no meu caderno:
Desapetece-me de andar à chuva. Percebo agora o que a minha mãe me queria dizer quando eu tinha dez anos. Porque há um molhar de chuvas íntimas que nunca mais seca mesmo que estendidas ao sol. Reapetece-me o silêncio das formigas. Porque as andorinhas já não são aqueles passarinhos do meu imaginário de antigamente.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Copy & Past

... Verifica se a tua professora tem olheiras. Se tiver, porta-te bem na sala de aula pois decerto que já há alguém a fazer-lhe os dias infelizes. Uma mulher com olheiras tem a alma assombrada.
Exercitando a prudência com a tua professora aprenderás a esperar pelo olhar feminino: uma vez limpo, só terá olhos para ti.

Copy & Past

A mentira é essencial numa relação amorosa.
Nos bons tempos, ela organizava o espaço e permitia zonas de sobrevivência: ele contentava-se com o sexo fácil ocasional, ela com uma paixão secreta pelo colega de escitório. Nenhum deles impunha a verdade dos seus grunhidos e suspiros.
Hoje, como somos todos muito intimistas e verdadeiros, somos incapazes de conter as convulsões. A verdade exige que as nossas histórias sejam reescritas continuamente.
A autonomia das entranhas devolve-nos, no final, uma vida estilhaçada. Mas verdadeira.

segunda-feira, setembro 24, 2007

TODO EU

Nasce, renasço,
acorda, encontra, visita, envolve,
olha.
Sente, pressente,
prende, conhece, segreda,
reinventa.
Espera, desespero,
arrisca, abraça, chama,
respira.
Lembra, relembra,
lavra, aduba, semeia, sonha, sonho
beija.
Diz, digo,
tira, despe, deita, dobra, une, desune,

quebra, incendeia, repete,
mente, minto, convence, vence,
ama
,
ama eu.