sábado, maio 31, 2008
INCONFIDÊNCIAS # 2
ROSA DE HIROSHIMA: os vereadores do PS solicitaram aos Tribunais a perda de mandato do Presidente da Câmara, a propósito do processo EuroStadium. Fizeram-no pela calada, apresentando tarde os fundamentos jurídicos. Sem justificações politicas, tanto mais que ajudaram a aprová-lo, confirmam desorientação estratégica e comportamentos erráticos. Mas, não mais que de repente, decidem mostrar serviço. Lançaram a bomba atómica, para disfarçarem a sua tão prolongada inércia.
MEMÓRIA: é tão merecida quanto comovente, a homenagem que os amigos e os filhos de Francisco Lucas Pires lhe prestam quando são passados dez anos sobre a sua morte. Nestes dias que correm velozes fazem falta óculos de ver ao longe, como li algures a propósito deste Homem de Coimbra.
LANTERNA VERMELHA: no relatório sobre a situação social na União Europeia diz-se que, qualquer que seja a forma de medir a desigualdade de rendimentos, Portugal é invariavelmente o ultimo e onde a pobreza é mais extrema. Mesmo que se encontrem culpados e se amanhem desculpas, há números que nos envergonham.
O RISO DA HIENA: somos tocados pelas imagens que nos chegam da África do Sul. O nosso olhar pasma-se quando imigrantes são espancados até à morte ou queimados vivos, ao som do júbilo dos seus carrascos. Não são sorrisos africanos à volta de uma fogueira sob um céu azul estrelar. Há ali risos de hienas que quase igualam tamanha xenofobia ao antigo apartheid.
CABOS DE GUERRA: cada vez mais as eleições nos partidos não se ganham pelo passado apreciável ou pelo futuro promissor, por falar eloquentemente ou estar calado prudentemente. Este é o tempo em que contar espingardas, ou sejam, votos dos militantes, só quer dizer mesmo contabilizar caciques.
NOVO ENCANTO: “Depois das orações de mãos dadas no balneário, sabemos agora que Scolari "anima os jogadores" (SIC, sic) com a música de Roberto Leal. Não tem como não dar certo.” (Pedro Caeiro, no Mar salgado)
terça-feira, maio 27, 2008
INCONFIDÊNCIAS # 1
QUEIMAR A QUEIMA: ou a Queima das Fitas se reforma, mantendo imutável o núcleo essencial da sua identidade, ou passa à história porque cada vez mais desinteressante para os não estudantes. Há assuntos demasiadamente sérios para serem tratados por um qualquer tremendista que se albarda da importância que ninguém lhe reconhece. Convém relembrar que a queima renasceu em 80 contagiada pelo apoio do povo anónimo e o entusiasmo incondicional dos antigos estudantes. Mas tornar-se-á cada vez mais irrelevante, quase uma private party, enquanto os dirigentes não perceberem que é fundamental reconquistar-nos a todos para a participação. E isto já lá não vai só com reajustes e muito menos com água de rosas.
DIVINA PROVIDÊNCIA: aceito pragmaticamente a ideia de que na política actual, principalmente na local, possa haver rigidez estratégica mas muita flexibilidade táctica. É o que me ocorre sempre que vejo o vereador do CDS a co-habitar com o da CDU, unidos na mesma luta. Por Coimbra, claro! Aliás, Frei Beto já tinha declarado que um cristão é um comunista, mesmo que o não queira e que um comunista é um cristão, mesmo que não creia.
COIMBRINHAS E COIMBRÕES: é de todo o interesse ler os tópicos do Professor Gomes Canotilho para uma intervenção sobre esse tema, retirados das conversas na Quinta das Lágrimas. Até para que se possa discordar de quem pensa e sabe pensar nos assuntos.
É SÓ FUMAÇA: alguém pediu a José Sócrates para deixar de fumar? Tão só lhe exigíamos que cumprisse a lei que tanto alardeou. Porque o exemplo é fundamental, sobretudo quando provindo de um fundamentalista. O mesmo que teimou na co-incineração em Souselas.
CALDOS DE GALINHA: nas directas para a liderança do PSD é de toda a prudência esperar para ver. E sobretudo não desdenhar da sabedoria popular de que até ao lavar dos cestos é vindima. Para finalmente ainda confirmar se o príncipe eleito ultrapassa o rubicão dos seis meses.
VELHA ACADEMIA: “Uma pessoa cria um blog … e de repente transforma-se num local onde se lava roupa suja em forma de anonimato.” (Manuel da Gaita, no Piolho da Solum)
quarta-feira, abril 16, 2008
Caderno dos Delírios
quinta-feira, abril 10, 2008
Ensaio sobre a Cagança
segunda-feira, março 17, 2008
Ensaio sobre a Cagança
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
Ensaio sobre a Cagança
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Ensaio sobre a Cagança
terça-feira, janeiro 29, 2008
segunda-feira, janeiro 14, 2008
O IMORTAL
Há trinta anos eu gostaria que me tivessem falado do factor tempo. À medida que olho pelo retrovisor não me arrependo dos erros, mas das oportunidades perdidas e das palavras não ditas.
Há trinta anos eu desconhecia o sentido do equilíbrio. Só agora descobri que significa aprender a dizer não. Ensinaram-nos a dizer sim por educação. Mas dizer não, quando se quer dizer não, é o maior economizador de tempo da nossa vida.
Há trinta anos eu não sabia que devia manter-me vivo o suficiente para ter sorte. Os anos deixam rugas na pele, mas a perda de entusiasmo deixa rugas na alma. Eu gostaria que me tivessem dito para seguir os sonhos, porque o importante é sermos nós mesmos e não o que os outros esperam. Que não nos devemos impressionar se nos juram que os sonhos são imprudentes. Ora essa! Eles não foram criados para serem prudentes, mas para darem sentido à nossa vida.
Há trinta anos eu não sabia distinguir um contratempo de um revés ou de uma tragédia. A maioria das coisas más da vida são contratempos. Os reveses são mais sérios, mas corrigem-se. As tragédias são diferentes e só quando passamos por elas é que as sentimos verdadeiramente. Assim, todos os acontecimentos devem ser sempre colocados em termos de proporção e perspectiva.
Há trinta anos eu não tinha cuidado com o síndrome das pessoas cinzentas. As que se adaptam e não contestam. Mas aprendi desde então a não ter medo de me opor e ser controverso. Faço alguns inimigos, porque não me dobro ou vendo, mas faço melhores amigos. É essencial ter a coragem de arriscar, porque uma vida sem perigos leva a arrependimentos tardios. E não ter receio de ser diferente dos que nos rodeiam, porque não há respostas únicas para este mundo.
Há trinta anos disseram-me que trabalhar no duro era o mais importante, mas não me ensinaram a saborear o aroma das flores. Por isso eu vos digo: sonhem, cantem e mantenham o sentido de humor. É o que faço, para além de escalar montanhas, nadar contra a correnteza dos rios, andar descalço por sobre as folhas caídas no Outono, divertir-me neste carrossel da vida e às vezes rir-me de mim mesmo quando me olho ao espelho de manhã.
terça-feira, janeiro 08, 2008
Ensaio sobre a Cagança
Saibamos sempre separar o trigo do enjoo, é o meu voto para 2008.
quarta-feira, janeiro 02, 2008
terça-feira, outubro 16, 2007
Uma borboleta com uma flor no cabelo
sexta-feira, outubro 12, 2007
Livro das Preciosidades
quarta-feira, outubro 03, 2007
A minha alma
domingo, setembro 30, 2007
Ensaio sobre a Cagança
quinta-feira, setembro 27, 2007
Copy & Past
Copy & Past
segunda-feira, setembro 24, 2007
TODO EU
acorda, encontra, visita, envolve,
olha.
Sente, pressente,
prende, conhece, segreda,
reinventa.
Espera, desespero,
arrisca, abraça, chama,
respira.
Lembra, relembra,
lavra, aduba, semeia, sonha, sonho
beija.
Diz, digo,
tira, despe, deita, dobra, une, desune,
quebra, incendeia, repete,
mente, minto, convence, vence,
ama,
ama eu.
quarta-feira, setembro 05, 2007
Espelho teu
Se me vejo ao espelho
revejo da alma a concha
vejo-me de pedra
revejo-me de bronze
segunda-feira, setembro 03, 2007
Auto-retratação
Estás terminantemente proibido de coleccionar as chuvas mais intimas, os espantos de jardins invisíveis e as ausências de lábios incertos.
Estás terminantemente proibido de reacender as horas que correm perdidas, os segredos que moram nos rios e os risos que morrem nos olhos.
Estás terminantemente proibido de passear os dedos nas lembranças, o desespero nos gestos em chamas e a vida na levada do vento.
Estás terminantemente proibido de tocar a pele de um corpo que pede, os desejos que falam sozinhos e as curvas das longas renuncias.
Estás terminantemente proibido de ser sol em tarde de Agosto, luar das noites de sábado e bêbado abismo de mim.
Estás terminantemente proibido de mergulhar nas correntes ocultas, no redemoinho das marés alterosas e no regaço das ondas perigosas.
Estás terminantemente proibido de ser quem és ou melhor, raiz de árvore sem tempo e casa dos teus sonhos de infância.
(a não ser que morras primeiro!...)
quinta-feira, agosto 30, 2007
absoluta mente
que te perdi
definitivamente
e perdendo-te me prendi
ao fantasma que habita em mim
e me mata devagar
definitivamente
digo-te
que me perdi.
terça-feira, agosto 14, 2007
morreu uma miragem
que eu fosse o que não sou
ou sendo quem sou nunca fosse eu
mas quem o céu mais azul te prometeu.
Tu querias
que eu fosse o teu segredo
e o sendo estivesse morto e enterrado
como um poeta que saiba sonhar calado.
Tu querias
que eu fosse estrela diurna
vento e chuva em dia de calmaria
e em que me indo fosse barco e voltaria.
Tu querias
que eu fosse um pé de lima
e o querendo criasse raízes mil
mas de flores uma só e em Abril.
Tu querias
que eu fosse de areia fina
e assim sendo que em duna me tornasse
morrendo de sede na praia que eu sonhasse.
quarta-feira, agosto 08, 2007
metade
(Oswaldo Montenegro)
terça-feira, agosto 07, 2007
terça-feira, junho 19, 2007
Só Eu
sou quem sei que não sou
digo-te que vou mas não vou
e dando-me nunca me dou.
sábado, junho 16, 2007
O Fado da Maianga
Aqui finalmente percebo o sentido de cada palavra de Manoel de Barros no seu Compendio para uso dos pássaros: “dali se escutavam os ventos com a boca como um dia ser árvore”. Daqui finalmente aprecio o tempero da escrita de Ernesto Lara Filho nas suas Crónicas e reportagens: “Há feijoadas que são poemas. Há poemas que são feijoadas. Feijão não liga com entrevista. Feijoada é notícia. Futebol é outro assunto. Boa tarde.”Percorro as ruas de Luanda como se fosse a primeira vez. E volto a ser menino. Rever o mundo com olhos de criança tem a vantagem de pensarmos que o céu existe mesmo. Que é quase sempre azul. E que se fazendo de outra cor qualquer, o mal não é da vista mas do tempo. As pessoas não são formigas mas borboletas multicoloridas. As chuvas não são borrascas mas bênçãos divinas. As noites não são o fim mas o princípio, porque amanhã é domingo. Revisitar a gente, como gente crescida, tem a vantagem de pensarmos que só os outros envelheceram. Enrugou-se-lhes a cara e a pele das mãos de dedos cada vez mais finos. Os cabelos brancos e raros. A menina dos olhos escondida por detrás de sobrancelhas enormes que pendem como chorões. O andar devagar quando devagar ainda dá para andar. Até chegar aqui, pensava eu que a ter de morrer, antes morrer de nostalgia do que atropelado por um machimbombo no Largo da Maianga. Depois de sair daí, digo eu que a ter de viver, antes viver da liberdade uma nesga do que sepultado para sempre no fado desta betesga.
sexta-feira, junho 15, 2007
Miradouro da Lua
Naquele dia, em que a lua entardecia e Luanda parecia querer amanhecer, o pássaro de ferro pousou suave, habituado que devia estar, automaticamente, a tais paranças. Na volta até se dorme, mas no regresso não há sono que amortalhe tantos e tamanhos pensamentos de antanho. E assim cheguei, despido de ideias feitas e quase nu, mas com uma faca no bolso, para cortar os nós de amarração a quem de amarras diz que já não precisa. Luanda aqui e a lua finalmente desaparecida. Ou então apenas tomada de recaída no parapeito dos meus olhos.
Nessa manhã em que Luanda me amanhecia, os meus pensamentos desceram, calçados em velozes pés de gazela, até à marginal e abancaram na ilha a ver, só assim mesmo, a baia maravilha. Mais, muito mais de mil imagens atropelaram-se-me na desempoeirada memória com que o caçador de gambozinos conta cada história. A cidade da lua que entardecia, morria e renasce a cada dia, estava ali a beijar-me à flor da pele. Areia morena na hora de fazer as pazes sem cachimbo. Água quente em época de fino cacimbo. Sol a crescer a pique que demorava. Lenta a pressa que é uma pressa de quem aqui tanto se amava. Cheiros da terra, sons ao vento e balancé de ininterrupto movimento nas ancas da mulher que passa. Agora me reencontro e me entrego à terra da lua e à sua graça.

