terça-feira, maio 27, 2008

INCONFIDÊNCIAS # 1

DECLARAÇÃO DE INTERESSES: ao iniciar esta coluna devo confessar que não sou imparcial ou neutro, nem pretendo sê-lo. E a peregrina ideia que não é possível questionar o poder, onde uma vez por outra me incluo como membro da Assembleia Municipal, não faz sentido para quem cultiva um espírito livre. Fica assim feito o aviso à navegação, sobretudo para os que não se esforçam no exercício recatado da defesa dos direitos dos cidadãos. Não sou dissidente, porque reconheço e tento cumprir com brio a missão para que aceitei ser eleito. Mas também não sendo cego nem fingidor, serei provocador quanto baste e quando necessário, porque eterno inconformado com o cinzentismo que grassa pela paróquia. Mesmo não metendo a todos no mesmo saco, em Coimbra parece querer morrer-se de nostalgia e haverá até quem declare a sua decadência. Ora, reafirmo aqui a minha crença nesta terra e nestas gentes que moldam o progresso com os olhos postos no futuro.
QUEIMAR A QUEIMA: ou a Queima das Fitas se reforma, mantendo imutável o núcleo essencial da sua identidade, ou passa à história porque cada vez mais desinteressante para os não estudantes. Há assuntos demasiadamente sérios para serem tratados por um qualquer tremendista que se albarda da importância que ninguém lhe reconhece. Convém relembrar que a queima renasceu em 80 contagiada pelo apoio do povo anónimo e o entusiasmo incondicional dos antigos estudantes. Mas tornar-se-á cada vez mais irrelevante, quase uma private party, enquanto os dirigentes não perceberem que é fundamental reconquistar-nos a todos para a participação. E isto já lá não vai só com reajustes e muito menos com água de rosas.
DIVINA PROVIDÊNCIA: aceito pragmaticamente a ideia de que na política actual, principalmente na local, possa haver rigidez estratégica mas muita flexibilidade táctica. É o que me ocorre sempre que vejo o vereador do CDS a co-habitar com o da CDU, unidos na mesma luta. Por Coimbra, claro! Aliás, Frei Beto já tinha declarado que um cristão é um comunista, mesmo que o não queira e que um comunista é um cristão, mesmo que não creia.
COIMBRINHAS E COIMBRÕES: é de todo o interesse ler os tópicos do Professor Gomes Canotilho para uma intervenção sobre esse tema, retirados das conversas na Quinta das Lágrimas. Até para que se possa discordar de quem pensa e sabe pensar nos assuntos.
É SÓ FUMAÇA: alguém pediu a José Sócrates para deixar de fumar? Tão só lhe exigíamos que cumprisse a lei que tanto alardeou. Porque o exemplo é fundamental, sobretudo quando provindo de um fundamentalista. O mesmo que teimou na co-incineração em Souselas.
CALDOS DE GALINHA: nas directas para a liderança do PSD é de toda a prudência esperar para ver. E sobretudo não desdenhar da sabedoria popular de que até ao lavar dos cestos é vindima. Para finalmente ainda confirmar se o príncipe eleito ultrapassa o rubicão dos seis meses.
VELHA ACADEMIA: “Uma pessoa cria um blog … e de repente transforma-se num local onde se lava roupa suja em forma de anonimato.” (Manuel da Gaita, no Piolho da Solum)

quarta-feira, abril 16, 2008

Caderno dos Delírios

A experiência dos caçadores no deserto do Kalahari aconselha, às vezes, a praticar a caça de espera. Esta modalidade não é muito do meu agrado, pois ficar empoleirado numa mutala, para que a onça saia ou seja obrigada a sair da toca, mostrando-se por inteiro, obriga frequentemente a longas e desconfortáveis jornadas.

quinta-feira, abril 10, 2008

Ensaio sobre a Cagança

Aponto no meu caderno:
O tempo ensinou-me e o momento comprova que a paciência requer muita prática.

segunda-feira, março 17, 2008

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Ensaio sobre a Cagança

Aponto no meu caderno:
A propósito de causas, que não de outras cousas, eu pecador me confesso - Luto sempre contra as tentações, só que elas ganham sempre!...

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

terça-feira, janeiro 29, 2008

segunda-feira, janeiro 14, 2008

O IMORTAL

Há trinta anos eu pensava que era imortal. Nós passamos a vida a olhar para a frente, mas só a entendemos quando olhamos para trás. E aí, o que faz a diferença, resume-se a pessoas e emoções.
Há trinta anos eu gostaria que me tivessem falado do factor tempo. À medida que olho pelo retrovisor não me arrependo dos erros, mas das oportunidades perdidas e das palavras não ditas.
Há trinta anos eu desconhecia o sentido do equilíbrio. Só agora descobri que significa aprender a dizer não. Ensinaram-nos a dizer sim por educação. Mas dizer não, quando se quer dizer não, é o maior economizador de tempo da nossa vida.
Há trinta anos eu não sabia que devia manter-me vivo o suficiente para ter sorte. Os anos deixam rugas na pele, mas a perda de entusiasmo deixa rugas na alma. Eu gostaria que me tivessem dito para seguir os sonhos, porque o importante é sermos nós mesmos e não o que os outros esperam. Que não nos devemos impressionar se nos juram que os sonhos são imprudentes. Ora essa! Eles não foram criados para serem prudentes, mas para darem sentido à nossa vida.
Há trinta anos eu não sabia distinguir um contratempo de um revés ou de uma tragédia. A maioria das coisas más da vida são contratempos. Os reveses são mais sérios, mas corrigem-se. As tragédias são diferentes e só quando passamos por elas é que as sentimos verdadeiramente. Assim, todos os acontecimentos devem ser sempre colocados em termos de proporção e perspectiva.
Há trinta anos eu não tinha cuidado com o síndrome das pessoas cinzentas. As que se adaptam e não contestam. Mas aprendi desde então a não ter medo de me opor e ser controverso. Faço alguns inimigos, porque não me dobro ou vendo, mas faço melhores amigos. É essencial ter a coragem de arriscar, porque uma vida sem perigos leva a arrependimentos tardios. E não ter receio de ser diferente dos que nos rodeiam, porque não há respostas únicas para este mundo.
Há trinta anos disseram-me que trabalhar no duro era o mais importante, mas não me ensinaram a saborear o aroma das flores. Por isso eu vos digo: sonhem, cantem e mantenham o sentido de humor. É o que faço, para além de escalar montanhas, nadar contra a correnteza dos rios, andar descalço por sobre as folhas caídas no Outono, divertir-me neste carrossel da vida e às vezes rir-me de mim mesmo quando me olho ao espelho de manhã.
Assim sendo, tenho muitos mais questões reais, mas muito menos problemas imaginários.

terça-feira, janeiro 08, 2008

quarta-feira, janeiro 02, 2008

quinta-feira, outubro 25, 2007

terça-feira, outubro 16, 2007

Uma borboleta com uma flor no cabelo

Dezasseis é o mais que perfeito dos números imperfeitos. Dezasseis é hoje, mas foi um dia destes. Dezasseis não é um, são dois. Dezasseis soma, multiplica, divide e às vezes subtrai. O sete, o quatorze, o vinte e um parecem ter relações cósmicas. Agora, dezasseis não. Não dá com os dias do ano ou da semana. Não dá com horas nem com minutos. E também não rima com nada que se saiba. E acredito que até gostasse. Dois rima com depois. Cinco com brinco. Agora dezasseis? Talvez se puser uma flor no cabelo fique com o ar da mais livre das borboletas. A não ser que reste prisioneira entre as folhas de um livro de lembranças e outras desesperanças.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Livro das Preciosidades

Quando desaparece um amigo até parece que o mar todo, de infinitas marés, nos bate de frente. Quando morre um amigo parece que desacontece a réstia de esperança na nossa pequena pátria das emoções maiores. Que nos importa saber se a eternidade está a ocidente ou se põe a oriente? Até parece que se apagam as luzes da nossa cidade muralhada. Nem mesmo há pirilampos que se atrevam em noites como assim.
E acontece ser o tempo para então passearmos os dois, sendo que eu o faço, tão só, viajando para dentro de mim!

quarta-feira, outubro 03, 2007

A minha alma

A minha alma sou eu e os meus navios de partida, mais o cais da despedida e as âncoras de infinitos desesperos. E também os meus silêncios, mais o corpo prisioneiro dos cansaços e das memórias que me traem. Eu sei que a minha alma sou eu e os meus caprichos, mais todos os bichos que venço e o diabo feito orgulho que não dispenso. E também os meus olhares, mais todos os beijos que roubo e o perfume encantado desses lugares. A minha alma sou eu e os meus rios interiores, mais as margens que os estreitam e um piano que toca só na vazante dos amores. E também os meus braços que não param de remar, mais os sonhos de que me convenço e o destino que se abre, assim seja raso o mar.

domingo, setembro 30, 2007

Ensaio sobre a Cagança

Aponto no meu caderno:
Desapetece-me de andar à chuva. Percebo agora o que a minha mãe me queria dizer quando eu tinha dez anos. Porque há um molhar de chuvas íntimas que nunca mais seca mesmo que estendidas ao sol. Reapetece-me o silêncio das formigas. Porque as andorinhas já não são aqueles passarinhos do meu imaginário de antigamente.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Copy & Past

... Verifica se a tua professora tem olheiras. Se tiver, porta-te bem na sala de aula pois decerto que já há alguém a fazer-lhe os dias infelizes. Uma mulher com olheiras tem a alma assombrada.
Exercitando a prudência com a tua professora aprenderás a esperar pelo olhar feminino: uma vez limpo, só terá olhos para ti.

Copy & Past

A mentira é essencial numa relação amorosa.
Nos bons tempos, ela organizava o espaço e permitia zonas de sobrevivência: ele contentava-se com o sexo fácil ocasional, ela com uma paixão secreta pelo colega de escitório. Nenhum deles impunha a verdade dos seus grunhidos e suspiros.
Hoje, como somos todos muito intimistas e verdadeiros, somos incapazes de conter as convulsões. A verdade exige que as nossas histórias sejam reescritas continuamente.
A autonomia das entranhas devolve-nos, no final, uma vida estilhaçada. Mas verdadeira.

segunda-feira, setembro 24, 2007

TODO EU

Nasce, renasço,
acorda, encontra, visita, envolve,
olha.
Sente, pressente,
prende, conhece, segreda,
reinventa.
Espera, desespero,
arrisca, abraça, chama,
respira.
Lembra, relembra,
lavra, aduba, semeia, sonha, sonho
beija.
Diz, digo,
tira, despe, deita, dobra, une, desune,

quebra, incendeia, repete,
mente, minto, convence, vence,
ama
,
ama eu.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Espelho teu

Sempre que me vejo ao espelho, pergunto-me:
- por onde anda o verde esperança dos meus olhos?
Se me vejo ao espelho
revejo da alma a concha
vejo-me de pedra
e não me reconheço,
sempre que me vejo ao espelho.
Se me revejo ao espelho
vejo deserta a face,
revejo-me de bronze
e não me desobedeço.
Sempre que me vejo ao espelho, pergunto-te:
- por onde anda a cega lembrança dos teus olhos?

segunda-feira, setembro 03, 2007

Auto-retratação

Estás terminantemente proibido de retirar a alegria do fundo da gaveta , o amor de dentro do silêncio e o teu nome da nudez das palavras.
Estás terminantemente proibido de coleccionar as chuvas mais intimas, os espantos de jardins invisíveis e as ausências de lábios incertos.
Estás terminantemente proibido de reacender as horas que correm perdidas, os segredos que moram nos rios e os risos que morrem nos olhos.
Estás terminantemente proibido de passear os dedos nas lembranças, o desespero nos gestos em chamas e a vida na levada do vento.
Estás terminantemente proibido de tocar a pele de um corpo que pede, os desejos que falam sozinhos e as curvas das longas renuncias.
Estás terminantemente proibido de ser sol em tarde de Agosto, luar das noites de sábado e bêbado abismo de mim.
Estás terminantemente proibido de mergulhar nas correntes ocultas, no redemoinho das marés alterosas e no regaço das ondas perigosas.
Estás terminantemente proibido de ser quem és ou melhor, raiz de árvore sem tempo e casa dos teus sonhos de infância.
(a não ser que morras primeiro!...)

quinta-feira, agosto 30, 2007

absoluta mente

Diz-me
que te perdi
definitivamente
e perdendo-te me prendi
ao fantasma que habita em mim
e me mata devagar
definitivamente
digo-te
que me perdi.

terça-feira, agosto 14, 2007

morreu uma miragem

Tu querias
que eu fosse o que não sou
ou sendo quem sou nunca fosse eu
mas quem o céu mais azul te prometeu.

Tu querias
que eu fosse o teu segredo
e o sendo estivesse morto e enterrado
como um poeta que saiba sonhar calado.

Tu querias
que eu fosse estrela diurna
vento e chuva em dia de calmaria
e em que me indo fosse barco e voltaria.

Tu querias
que eu fosse um pé de lima
e o querendo criasse raízes mil
mas de flores uma só e em Abril.

Tu querias
que eu fosse de areia fina
e assim sendo que em duna me tornasse
morrendo de sede na praia que eu sonhasse.

quarta-feira, agosto 08, 2007

metade

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca. Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio. (...)
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos. Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo. (...)
Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância. Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei... (...)
E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.
(Oswaldo Montenegro)

terça-feira, agosto 07, 2007

Em política a deslealdade legitima-se pelos resultados que obtém.
E no amor?

quinta-feira, agosto 02, 2007

terça-feira, junho 19, 2007

Só Eu

Estou bem onde não estou
sou quem sei que não sou
digo-te que vou mas não vou
e dando-me nunca me dou.

sábado, junho 16, 2007

O Fado da Maianga

Aqui finalmente percebo o sentido de cada palavra de Manoel de Barros no seu Compendio para uso dos pássaros: “dali se escutavam os ventos com a boca como um dia ser árvore”. Daqui finalmente aprecio o tempero da escrita de Ernesto Lara Filho nas suas Crónicas e reportagens: “Há feijoadas que são poemas. Há poemas que são feijoadas. Feijão não liga com entrevista. Feijoada é notícia. Futebol é outro assunto. Boa tarde.”
Percorro as ruas de Luanda como se fosse a primeira vez. E volto a ser menino. Rever o mundo com olhos de criança tem a vantagem de pensarmos que o céu existe mesmo. Que é quase sempre azul. E que se fazendo de outra cor qualquer, o mal não é da vista mas do tempo. As pessoas não são formigas mas borboletas multicoloridas. As chuvas não são borrascas mas bênçãos divinas. As noites não são o fim mas o princípio, porque amanhã é domingo. Revisitar a gente, como gente crescida, tem a vantagem de pensarmos que só os outros envelheceram. Enrugou-se-lhes a cara e a pele das mãos de dedos cada vez mais finos. Os cabelos brancos e raros. A menina dos olhos escondida por detrás de sobrancelhas enormes que pendem como chorões. O andar devagar quando devagar ainda dá para andar. Até chegar aqui, pensava eu que a ter de morrer, antes morrer de nostalgia do que atropelado por um machimbombo no Largo da Maianga. Depois de sair daí, digo eu que a ter de viver, antes viver da liberdade uma nesga do que sepultado para sempre no fado desta betesga.

sexta-feira, junho 15, 2007

Miradouro da Lua

Naquele dia, em que a lua entardecia e Luanda parecia querer amanhecer, o pássaro de ferro pousou suave, habituado que devia estar, automaticamente, a tais paranças. Na volta até se dorme, mas no regresso não há sono que amortalhe tantos e tamanhos pensamentos de antanho. E assim cheguei, despido de ideias feitas e quase nu, mas com uma faca no bolso, para cortar os nós de amarração a quem de amarras diz que já não precisa. Luanda aqui e a lua finalmente desaparecida. Ou então apenas tomada de recaída no parapeito dos meus olhos.
Nessa manhã em que Luanda me amanhecia, os meus pensamentos desceram, calçados em velozes pés de gazela, até à marginal e abancaram na ilha a ver, só assim mesmo, a baia maravilha. Mais, muito mais de mil imagens atropelaram-se-me na desempoeirada memória com que o caçador de gambozinos conta cada história. A cidade da lua que entardecia, morria e renasce a cada dia, estava ali a beijar-me à flor da pele. Areia morena na hora de fazer as pazes sem cachimbo. Água quente em época de fino cacimbo. Sol a crescer a pique que demorava. Lenta a pressa que é uma pressa de quem aqui tanto se amava. Cheiros da terra, sons ao vento e balancé de ininterrupto movimento nas ancas da mulher que passa. Agora me reencontro e me entrego à terra da lua e à sua graça.

quarta-feira, junho 06, 2007

Caderno dos Delírios

Hoje parto daqui.
Daqui onde as pernas me tropeçam por não querer criar raízes. Amanhã estou aí, onde o coração me voa do peito feito nau em mar aberto. Hoje homem-castelo. Amanhã flor-de-imbondeiro. Aqui anel de fogo no celeiro. Aí fio de vento no deserto. Hoje planto acácias daí nas muralhas dos meus olhos. Amanhã canto serenatas daqui às janelas dos meus sonhos. Pouso em repouso no cimo da árvore mais alta do meu destino. E descanso de mim.
Por fim.

terça-feira, junho 05, 2007