segunda-feira, março 17, 2008
Ensaio sobre a Cagança
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
Ensaio sobre a Cagança
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Ensaio sobre a Cagança
terça-feira, janeiro 29, 2008
segunda-feira, janeiro 14, 2008
O IMORTAL
Há trinta anos eu gostaria que me tivessem falado do factor tempo. À medida que olho pelo retrovisor não me arrependo dos erros, mas das oportunidades perdidas e das palavras não ditas.
Há trinta anos eu desconhecia o sentido do equilíbrio. Só agora descobri que significa aprender a dizer não. Ensinaram-nos a dizer sim por educação. Mas dizer não, quando se quer dizer não, é o maior economizador de tempo da nossa vida.
Há trinta anos eu não sabia que devia manter-me vivo o suficiente para ter sorte. Os anos deixam rugas na pele, mas a perda de entusiasmo deixa rugas na alma. Eu gostaria que me tivessem dito para seguir os sonhos, porque o importante é sermos nós mesmos e não o que os outros esperam. Que não nos devemos impressionar se nos juram que os sonhos são imprudentes. Ora essa! Eles não foram criados para serem prudentes, mas para darem sentido à nossa vida.
Há trinta anos eu não sabia distinguir um contratempo de um revés ou de uma tragédia. A maioria das coisas más da vida são contratempos. Os reveses são mais sérios, mas corrigem-se. As tragédias são diferentes e só quando passamos por elas é que as sentimos verdadeiramente. Assim, todos os acontecimentos devem ser sempre colocados em termos de proporção e perspectiva.
Há trinta anos eu não tinha cuidado com o síndrome das pessoas cinzentas. As que se adaptam e não contestam. Mas aprendi desde então a não ter medo de me opor e ser controverso. Faço alguns inimigos, porque não me dobro ou vendo, mas faço melhores amigos. É essencial ter a coragem de arriscar, porque uma vida sem perigos leva a arrependimentos tardios. E não ter receio de ser diferente dos que nos rodeiam, porque não há respostas únicas para este mundo.
Há trinta anos disseram-me que trabalhar no duro era o mais importante, mas não me ensinaram a saborear o aroma das flores. Por isso eu vos digo: sonhem, cantem e mantenham o sentido de humor. É o que faço, para além de escalar montanhas, nadar contra a correnteza dos rios, andar descalço por sobre as folhas caídas no Outono, divertir-me neste carrossel da vida e às vezes rir-me de mim mesmo quando me olho ao espelho de manhã.
terça-feira, janeiro 08, 2008
Ensaio sobre a Cagança
Saibamos sempre separar o trigo do enjoo, é o meu voto para 2008.
quarta-feira, janeiro 02, 2008
terça-feira, outubro 16, 2007
Uma borboleta com uma flor no cabelo
sexta-feira, outubro 12, 2007
Livro das Preciosidades
quarta-feira, outubro 03, 2007
A minha alma
domingo, setembro 30, 2007
Ensaio sobre a Cagança
quinta-feira, setembro 27, 2007
Copy & Past
Copy & Past
segunda-feira, setembro 24, 2007
TODO EU
acorda, encontra, visita, envolve,
olha.
Sente, pressente,
prende, conhece, segreda,
reinventa.
Espera, desespero,
arrisca, abraça, chama,
respira.
Lembra, relembra,
lavra, aduba, semeia, sonha, sonho
beija.
Diz, digo,
tira, despe, deita, dobra, une, desune,
quebra, incendeia, repete,
mente, minto, convence, vence,
ama,
ama eu.
quarta-feira, setembro 05, 2007
Espelho teu
Se me vejo ao espelho
revejo da alma a concha
vejo-me de pedra
revejo-me de bronze
segunda-feira, setembro 03, 2007
Auto-retratação
Estás terminantemente proibido de coleccionar as chuvas mais intimas, os espantos de jardins invisíveis e as ausências de lábios incertos.
Estás terminantemente proibido de reacender as horas que correm perdidas, os segredos que moram nos rios e os risos que morrem nos olhos.
Estás terminantemente proibido de passear os dedos nas lembranças, o desespero nos gestos em chamas e a vida na levada do vento.
Estás terminantemente proibido de tocar a pele de um corpo que pede, os desejos que falam sozinhos e as curvas das longas renuncias.
Estás terminantemente proibido de ser sol em tarde de Agosto, luar das noites de sábado e bêbado abismo de mim.
Estás terminantemente proibido de mergulhar nas correntes ocultas, no redemoinho das marés alterosas e no regaço das ondas perigosas.
Estás terminantemente proibido de ser quem és ou melhor, raiz de árvore sem tempo e casa dos teus sonhos de infância.
(a não ser que morras primeiro!...)
quinta-feira, agosto 30, 2007
absoluta mente
que te perdi
definitivamente
e perdendo-te me prendi
ao fantasma que habita em mim
e me mata devagar
definitivamente
digo-te
que me perdi.
terça-feira, agosto 14, 2007
morreu uma miragem
que eu fosse o que não sou
ou sendo quem sou nunca fosse eu
mas quem o céu mais azul te prometeu.
Tu querias
que eu fosse o teu segredo
e o sendo estivesse morto e enterrado
como um poeta que saiba sonhar calado.
Tu querias
que eu fosse estrela diurna
vento e chuva em dia de calmaria
e em que me indo fosse barco e voltaria.
Tu querias
que eu fosse um pé de lima
e o querendo criasse raízes mil
mas de flores uma só e em Abril.
Tu querias
que eu fosse de areia fina
e assim sendo que em duna me tornasse
morrendo de sede na praia que eu sonhasse.
quarta-feira, agosto 08, 2007
metade
(Oswaldo Montenegro)
terça-feira, agosto 07, 2007
terça-feira, junho 19, 2007
Só Eu
sou quem sei que não sou
digo-te que vou mas não vou
e dando-me nunca me dou.
sábado, junho 16, 2007
O Fado da Maianga
Aqui finalmente percebo o sentido de cada palavra de Manoel de Barros no seu Compendio para uso dos pássaros: “dali se escutavam os ventos com a boca como um dia ser árvore”. Daqui finalmente aprecio o tempero da escrita de Ernesto Lara Filho nas suas Crónicas e reportagens: “Há feijoadas que são poemas. Há poemas que são feijoadas. Feijão não liga com entrevista. Feijoada é notícia. Futebol é outro assunto. Boa tarde.”Percorro as ruas de Luanda como se fosse a primeira vez. E volto a ser menino. Rever o mundo com olhos de criança tem a vantagem de pensarmos que o céu existe mesmo. Que é quase sempre azul. E que se fazendo de outra cor qualquer, o mal não é da vista mas do tempo. As pessoas não são formigas mas borboletas multicoloridas. As chuvas não são borrascas mas bênçãos divinas. As noites não são o fim mas o princípio, porque amanhã é domingo. Revisitar a gente, como gente crescida, tem a vantagem de pensarmos que só os outros envelheceram. Enrugou-se-lhes a cara e a pele das mãos de dedos cada vez mais finos. Os cabelos brancos e raros. A menina dos olhos escondida por detrás de sobrancelhas enormes que pendem como chorões. O andar devagar quando devagar ainda dá para andar. Até chegar aqui, pensava eu que a ter de morrer, antes morrer de nostalgia do que atropelado por um machimbombo no Largo da Maianga. Depois de sair daí, digo eu que a ter de viver, antes viver da liberdade uma nesga do que sepultado para sempre no fado desta betesga.
sexta-feira, junho 15, 2007
Miradouro da Lua
Naquele dia, em que a lua entardecia e Luanda parecia querer amanhecer, o pássaro de ferro pousou suave, habituado que devia estar, automaticamente, a tais paranças. Na volta até se dorme, mas no regresso não há sono que amortalhe tantos e tamanhos pensamentos de antanho. E assim cheguei, despido de ideias feitas e quase nu, mas com uma faca no bolso, para cortar os nós de amarração a quem de amarras diz que já não precisa. Luanda aqui e a lua finalmente desaparecida. Ou então apenas tomada de recaída no parapeito dos meus olhos.
Nessa manhã em que Luanda me amanhecia, os meus pensamentos desceram, calçados em velozes pés de gazela, até à marginal e abancaram na ilha a ver, só assim mesmo, a baia maravilha. Mais, muito mais de mil imagens atropelaram-se-me na desempoeirada memória com que o caçador de gambozinos conta cada história. A cidade da lua que entardecia, morria e renasce a cada dia, estava ali a beijar-me à flor da pele. Areia morena na hora de fazer as pazes sem cachimbo. Água quente em época de fino cacimbo. Sol a crescer a pique que demorava. Lenta a pressa que é uma pressa de quem aqui tanto se amava. Cheiros da terra, sons ao vento e balancé de ininterrupto movimento nas ancas da mulher que passa. Agora me reencontro e me entrego à terra da lua e à sua graça.
quarta-feira, junho 06, 2007
Caderno dos Delírios
terça-feira, junho 05, 2007
terça-feira, maio 29, 2007
Livro das Crónicas da Guiné (6)
Enquanto vou aqui desfiando as minhas memórias, entre a dor que comove pelo que vi e a esperança que me mobiliza para o que hei-de ver, há quem se entretenha a pensar o mundo através de gulosos olhos fardados com palas de alpaca. É o caso de uma Excelência que, nada tendo feito e nada se adivinhando vir a fazer por causas que nos enobrecem, decide pintar de negro as próprias fuças, talvez na esperança de que com abraços de urso outros possam também ser atingidos.O que vou escrevinhando não é nada que se compare ao extraordinário, sublinho ordinário, Projecto de Relatório da dita Exa. Porque eu falo das minhas emoções. A Exa. fala das suas tolas preocupações. Porque eu escrevo do que me vai na alma. A Exa. escreve do que pensa que lhe falta no bolso. Porque eu sonho. A Exa. delira. Porque eu sei. A Exa. presume. Porque eu confio nas pessoas. A Exa. desconfia da própria sombra.
Talvez tudo isso se deva ao facto da Exa. estar instalada na capital da paróquia. E pense que tudo o resto não passa de um enorme circo onde a saloiada de vida alegre e fácil se diverte. É a visão da parvónia plena de radiosas personagens de que não se sabe o modo de vida, mas que a Exa. parece querer escrutinar. Talvez tudo isso se deva ao facto de eu imaginar ainda uma Lisboa civilizada. Mas observando o vómito do figurão, presumo que se transformou num escarro de si mesma. Revisitada assim, Lisboa parece-me apenas uma mercearia ou um medíocre estábulo onde alguns encostam o rabo. Mas Lisboa já não tem tino, nem bom senso, boa gente, nem gente boa? Nem nada? Não creio que assim seja, sinceramente!
Não compreendo a inquietação e o choro que algum indígena possa ensaiar, como se a expedição à Guiné tivesse sido uma fogueira ardendo suavemente, para gáudio de poucos ou de um só que seja. Nem tenho paciência para ouvir coveiros, na sua rotina de pouco sóbria fantasia, acerca da necessária grande barrela a interesseiros armados em pseudo-humanitários. Felizmente a Exa., com a inteligência que lhe coube, não teve o despautério de pedir contas ao cêntimo do chouriço, da aguardente com mel ou de outras iguarias que todas as toleironas figuras da expedição decidiram pagar repartidamente do seu próprio bolso, para que se preparassem fugazes almoços para tão longa viagem.
Haja quem responda pessoalmente aos quesitos colocados por inigualável pavão que, caindo na banalidade de desconhecendo o que quer que fosse, pronuncia judiciosos pareceres sobre a matéria. Perante tantos e curiosos exemplos de falta de originalidade, de mau siso e pouca reflexão, ocorre perguntar se não estaremos perante o eterno problema: é que mesmo que o palerma se julgue dono do palácio, ainda assim se esquece sempre de puxar o autoclismo?
Compreender o que faz correr a Exa. é todo um programa em que me escuso de participar. Porque não me faço definitivamente acompanhar por gente pouco recomendável, nem dou ouvidos a conversas de caserna entre comadres. E porque a Exa., ao apresentar o que apresentou e como o fez, sem cuidar de saber mais e melhor, tinha de ciência certa que nada é mais atraente que os escritos desonestos.
Como disse Jorge de Sena: O problema não é salvar Portugal, mas salvar-nos de Portugal. A que eu acrescentaria: e sobretudo de alguns Portugueses…
sábado, maio 12, 2007
Livro das Crónicas da Guiné

Este não é o tempo de ser-se sibilino, qual cardeal da Cúria, para assumir um gesto que prevaleça sobre o mar de palavras com que a bem-pensância politica nos inunda sem descanso. Porque eu vi o que é o desespero sitiado e não encontro a palavra certa que o descreva. Perdoem-me. Porque eu conheço um provérbio árabe que nos recorda como um sitiado é sempre um vencido. Porque eu penso na tese de Malraux de que os homens mais tocados de humanidade não fazem revoluções: fazem bibliotecas e cemitérios.
Não há tempo para uma paixão fria. Nem há mais tempo para ouvir aquela morna que pergunta: Quem mostra'bo ess caminho longe? Agora é tudo uma questão de amor. Amor mesmo! Nem que seja por nós próprios …

