quinta-feira, outubro 25, 2007

terça-feira, outubro 16, 2007

Uma borboleta com uma flor no cabelo

Dezasseis é o mais que perfeito dos números imperfeitos. Dezasseis é hoje, mas foi um dia destes. Dezasseis não é um, são dois. Dezasseis soma, multiplica, divide e às vezes subtrai. O sete, o quatorze, o vinte e um parecem ter relações cósmicas. Agora, dezasseis não. Não dá com os dias do ano ou da semana. Não dá com horas nem com minutos. E também não rima com nada que se saiba. E acredito que até gostasse. Dois rima com depois. Cinco com brinco. Agora dezasseis? Talvez se puser uma flor no cabelo fique com o ar da mais livre das borboletas. A não ser que reste prisioneira entre as folhas de um livro de lembranças e outras desesperanças.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Livro das Preciosidades

Quando desaparece um amigo até parece que o mar todo, de infinitas marés, nos bate de frente. Quando morre um amigo parece que desacontece a réstia de esperança na nossa pequena pátria das emoções maiores. Que nos importa saber se a eternidade está a ocidente ou se põe a oriente? Até parece que se apagam as luzes da nossa cidade muralhada. Nem mesmo há pirilampos que se atrevam em noites como assim.
E acontece ser o tempo para então passearmos os dois, sendo que eu o faço, tão só, viajando para dentro de mim!

quarta-feira, outubro 03, 2007

A minha alma

A minha alma sou eu e os meus navios de partida, mais o cais da despedida e as âncoras de infinitos desesperos. E também os meus silêncios, mais o corpo prisioneiro dos cansaços e das memórias que me traem. Eu sei que a minha alma sou eu e os meus caprichos, mais todos os bichos que venço e o diabo feito orgulho que não dispenso. E também os meus olhares, mais todos os beijos que roubo e o perfume encantado desses lugares. A minha alma sou eu e os meus rios interiores, mais as margens que os estreitam e um piano que toca só na vazante dos amores. E também os meus braços que não param de remar, mais os sonhos de que me convenço e o destino que se abre, assim seja raso o mar.

domingo, setembro 30, 2007

Ensaio sobre a Cagança

Aponto no meu caderno:
Desapetece-me de andar à chuva. Percebo agora o que a minha mãe me queria dizer quando eu tinha dez anos. Porque há um molhar de chuvas íntimas que nunca mais seca mesmo que estendidas ao sol. Reapetece-me o silêncio das formigas. Porque as andorinhas já não são aqueles passarinhos do meu imaginário de antigamente.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Copy & Past

... Verifica se a tua professora tem olheiras. Se tiver, porta-te bem na sala de aula pois decerto que já há alguém a fazer-lhe os dias infelizes. Uma mulher com olheiras tem a alma assombrada.
Exercitando a prudência com a tua professora aprenderás a esperar pelo olhar feminino: uma vez limpo, só terá olhos para ti.

Copy & Past

A mentira é essencial numa relação amorosa.
Nos bons tempos, ela organizava o espaço e permitia zonas de sobrevivência: ele contentava-se com o sexo fácil ocasional, ela com uma paixão secreta pelo colega de escitório. Nenhum deles impunha a verdade dos seus grunhidos e suspiros.
Hoje, como somos todos muito intimistas e verdadeiros, somos incapazes de conter as convulsões. A verdade exige que as nossas histórias sejam reescritas continuamente.
A autonomia das entranhas devolve-nos, no final, uma vida estilhaçada. Mas verdadeira.

segunda-feira, setembro 24, 2007

TODO EU

Nasce, renasço,
acorda, encontra, visita, envolve,
olha.
Sente, pressente,
prende, conhece, segreda,
reinventa.
Espera, desespero,
arrisca, abraça, chama,
respira.
Lembra, relembra,
lavra, aduba, semeia, sonha, sonho
beija.
Diz, digo,
tira, despe, deita, dobra, une, desune,

quebra, incendeia, repete,
mente, minto, convence, vence,
ama
,
ama eu.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Espelho teu

Sempre que me vejo ao espelho, pergunto-me:
- por onde anda o verde esperança dos meus olhos?
Se me vejo ao espelho
revejo da alma a concha
vejo-me de pedra
e não me reconheço,
sempre que me vejo ao espelho.
Se me revejo ao espelho
vejo deserta a face,
revejo-me de bronze
e não me desobedeço.
Sempre que me vejo ao espelho, pergunto-te:
- por onde anda a cega lembrança dos teus olhos?

segunda-feira, setembro 03, 2007

Auto-retratação

Estás terminantemente proibido de retirar a alegria do fundo da gaveta , o amor de dentro do silêncio e o teu nome da nudez das palavras.
Estás terminantemente proibido de coleccionar as chuvas mais intimas, os espantos de jardins invisíveis e as ausências de lábios incertos.
Estás terminantemente proibido de reacender as horas que correm perdidas, os segredos que moram nos rios e os risos que morrem nos olhos.
Estás terminantemente proibido de passear os dedos nas lembranças, o desespero nos gestos em chamas e a vida na levada do vento.
Estás terminantemente proibido de tocar a pele de um corpo que pede, os desejos que falam sozinhos e as curvas das longas renuncias.
Estás terminantemente proibido de ser sol em tarde de Agosto, luar das noites de sábado e bêbado abismo de mim.
Estás terminantemente proibido de mergulhar nas correntes ocultas, no redemoinho das marés alterosas e no regaço das ondas perigosas.
Estás terminantemente proibido de ser quem és ou melhor, raiz de árvore sem tempo e casa dos teus sonhos de infância.
(a não ser que morras primeiro!...)

quinta-feira, agosto 30, 2007

absoluta mente

Diz-me
que te perdi
definitivamente
e perdendo-te me prendi
ao fantasma que habita em mim
e me mata devagar
definitivamente
digo-te
que me perdi.

terça-feira, agosto 14, 2007

morreu uma miragem

Tu querias
que eu fosse o que não sou
ou sendo quem sou nunca fosse eu
mas quem o céu mais azul te prometeu.

Tu querias
que eu fosse o teu segredo
e o sendo estivesse morto e enterrado
como um poeta que saiba sonhar calado.

Tu querias
que eu fosse estrela diurna
vento e chuva em dia de calmaria
e em que me indo fosse barco e voltaria.

Tu querias
que eu fosse um pé de lima
e o querendo criasse raízes mil
mas de flores uma só e em Abril.

Tu querias
que eu fosse de areia fina
e assim sendo que em duna me tornasse
morrendo de sede na praia que eu sonhasse.

quarta-feira, agosto 08, 2007

metade

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca. Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio. (...)
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor, apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos. Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo. (...)
Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância. Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei... (...)
E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.
(Oswaldo Montenegro)

terça-feira, agosto 07, 2007

Em política a deslealdade legitima-se pelos resultados que obtém.
E no amor?

quinta-feira, agosto 02, 2007

terça-feira, junho 19, 2007

Só Eu

Estou bem onde não estou
sou quem sei que não sou
digo-te que vou mas não vou
e dando-me nunca me dou.

sábado, junho 16, 2007

O Fado da Maianga

Aqui finalmente percebo o sentido de cada palavra de Manoel de Barros no seu Compendio para uso dos pássaros: “dali se escutavam os ventos com a boca como um dia ser árvore”. Daqui finalmente aprecio o tempero da escrita de Ernesto Lara Filho nas suas Crónicas e reportagens: “Há feijoadas que são poemas. Há poemas que são feijoadas. Feijão não liga com entrevista. Feijoada é notícia. Futebol é outro assunto. Boa tarde.”
Percorro as ruas de Luanda como se fosse a primeira vez. E volto a ser menino. Rever o mundo com olhos de criança tem a vantagem de pensarmos que o céu existe mesmo. Que é quase sempre azul. E que se fazendo de outra cor qualquer, o mal não é da vista mas do tempo. As pessoas não são formigas mas borboletas multicoloridas. As chuvas não são borrascas mas bênçãos divinas. As noites não são o fim mas o princípio, porque amanhã é domingo. Revisitar a gente, como gente crescida, tem a vantagem de pensarmos que só os outros envelheceram. Enrugou-se-lhes a cara e a pele das mãos de dedos cada vez mais finos. Os cabelos brancos e raros. A menina dos olhos escondida por detrás de sobrancelhas enormes que pendem como chorões. O andar devagar quando devagar ainda dá para andar. Até chegar aqui, pensava eu que a ter de morrer, antes morrer de nostalgia do que atropelado por um machimbombo no Largo da Maianga. Depois de sair daí, digo eu que a ter de viver, antes viver da liberdade uma nesga do que sepultado para sempre no fado desta betesga.

sexta-feira, junho 15, 2007

Miradouro da Lua

Naquele dia, em que a lua entardecia e Luanda parecia querer amanhecer, o pássaro de ferro pousou suave, habituado que devia estar, automaticamente, a tais paranças. Na volta até se dorme, mas no regresso não há sono que amortalhe tantos e tamanhos pensamentos de antanho. E assim cheguei, despido de ideias feitas e quase nu, mas com uma faca no bolso, para cortar os nós de amarração a quem de amarras diz que já não precisa. Luanda aqui e a lua finalmente desaparecida. Ou então apenas tomada de recaída no parapeito dos meus olhos.
Nessa manhã em que Luanda me amanhecia, os meus pensamentos desceram, calçados em velozes pés de gazela, até à marginal e abancaram na ilha a ver, só assim mesmo, a baia maravilha. Mais, muito mais de mil imagens atropelaram-se-me na desempoeirada memória com que o caçador de gambozinos conta cada história. A cidade da lua que entardecia, morria e renasce a cada dia, estava ali a beijar-me à flor da pele. Areia morena na hora de fazer as pazes sem cachimbo. Água quente em época de fino cacimbo. Sol a crescer a pique que demorava. Lenta a pressa que é uma pressa de quem aqui tanto se amava. Cheiros da terra, sons ao vento e balancé de ininterrupto movimento nas ancas da mulher que passa. Agora me reencontro e me entrego à terra da lua e à sua graça.

quarta-feira, junho 06, 2007

Caderno dos Delírios

Hoje parto daqui.
Daqui onde as pernas me tropeçam por não querer criar raízes. Amanhã estou aí, onde o coração me voa do peito feito nau em mar aberto. Hoje homem-castelo. Amanhã flor-de-imbondeiro. Aqui anel de fogo no celeiro. Aí fio de vento no deserto. Hoje planto acácias daí nas muralhas dos meus olhos. Amanhã canto serenatas daqui às janelas dos meus sonhos. Pouso em repouso no cimo da árvore mais alta do meu destino. E descanso de mim.
Por fim.

terça-feira, junho 05, 2007

terça-feira, maio 29, 2007

Livro das Crónicas da Guiné (6)

Enquanto vou aqui desfiando as minhas memórias, entre a dor que comove pelo que vi e a esperança que me mobiliza para o que hei-de ver, há quem se entretenha a pensar o mundo através de gulosos olhos fardados com palas de alpaca. É o caso de uma Excelência que, nada tendo feito e nada se adivinhando vir a fazer por causas que nos enobrecem, decide pintar de negro as próprias fuças, talvez na esperança de que com abraços de urso outros possam também ser atingidos.
O que vou escrevinhando não é nada que se compare ao extraordinário, sublinho ordinário, Projecto de Relatório da dita Exa. Porque eu falo das minhas emoções. A Exa. fala das suas tolas preocupações. Porque eu escrevo do que me vai na alma. A Exa. escreve do que pensa que lhe falta no bolso. Porque eu sonho. A Exa. delira. Porque eu sei. A Exa. presume. Porque eu confio nas pessoas. A Exa. desconfia da própria sombra.
Talvez tudo isso se deva ao facto da Exa. estar instalada na capital da paróquia. E pense que tudo o resto não passa de um enorme circo onde a saloiada de vida alegre e fácil se diverte. É a visão da parvónia plena de radiosas personagens de que não se sabe o modo de vida, mas que a Exa. parece querer escrutinar. Talvez tudo isso se deva ao facto de eu imaginar ainda uma Lisboa civilizada. Mas observando o vómito do figurão, presumo que se transformou num escarro de si mesma. Revisitada assim, Lisboa parece-me apenas uma mercearia ou um medíocre estábulo onde alguns encostam o rabo. Mas Lisboa já não tem tino, nem bom senso, boa gente, nem gente boa? Nem nada? Não creio que assim seja, sinceramente!
Não compreendo a inquietação e o choro que algum indígena possa ensaiar, como se a expedição à Guiné tivesse sido uma fogueira ardendo suavemente, para gáudio de poucos ou de um só que seja. Nem tenho paciência para ouvir coveiros, na sua rotina de pouco sóbria fantasia, acerca da necessária grande barrela a interesseiros armados em pseudo-humanitários. Felizmente a Exa., com a inteligência que lhe coube, não teve o despautério de pedir contas ao cêntimo do chouriço, da aguardente com mel ou de outras iguarias que todas as toleironas figuras da expedição decidiram pagar repartidamente do seu próprio bolso, para que se preparassem fugazes almoços para tão longa viagem.
Haja quem responda pessoalmente aos quesitos colocados por inigualável pavão que, caindo na banalidade de desconhecendo o que quer que fosse, pronuncia judiciosos pareceres sobre a matéria. Perante tantos e curiosos exemplos de falta de originalidade, de mau siso e pouca reflexão, ocorre perguntar se não estaremos perante o eterno problema: é que mesmo que o palerma se julgue dono do palácio, ainda assim se esquece sempre de puxar o autoclismo?
Compreender o que faz correr a Exa. é todo um programa em que me escuso de participar. Porque não me faço definitivamente acompanhar por gente pouco recomendável, nem dou ouvidos a conversas de caserna entre comadres. E porque a Exa., ao apresentar o que apresentou e como o fez, sem cuidar de saber mais e melhor, tinha de ciência certa que nada é mais atraente que os escritos desonestos.
Como disse Jorge de Sena: O problema não é salvar Portugal, mas salvar-nos de Portugal. A que eu acrescentaria: e sobretudo de alguns Portugueses…

sábado, maio 12, 2007

Livro das Crónicas da Guiné


Em boa hora fui convocado a ver de perto essa mancha de indiferença que alastra mais veloz do que qualquer deserto. É a Guiné à nossa janela. Ou melhor, sendo a Guiné uma janela nossa, parece que não perceberemos nunca que há labaredas de indescritível miséria que nos entram casa adentro. E nos consomem devagar.
O Dicionário da Academia das Ciências certamente não encontrou a palavra que pode descrever o que sinto quando relembro o que vi nos olhos pasmados de uma criança, uma mãe preta, um mais velho. Porque neste mundo em que os distantes infernos em imagens nos invadem todos os dias, enquanto estamos refastelados no sofá de scotch on the rocks numa mão e salgadinhos rançosos na outra, há palavras que já consumiram o pavio que nos obrigavam a apagar com urgência os nossos incêndios de consciência.
Este não é o tempo de ser-se sibilino, qual cardeal da Cúria, para assumir um gesto que prevaleça sobre o mar de palavras com que a bem-pensância politica nos inunda sem descanso. Porque eu vi o que é o desespero sitiado e não encontro a palavra certa que o descreva. Perdoem-me. Porque eu conheço um provérbio árabe que nos recorda como um sitiado é sempre um vencido. Porque eu penso na tese de Malraux de que os homens mais tocados de humanidade não fazem revoluções: fazem bibliotecas e cemitérios.
Não há tempo para uma paixão fria. Nem há mais tempo para ouvir aquela morna que pergunta: Quem mostra'bo ess caminho longe? Agora é tudo uma questão de amor. Amor mesmo! Nem que seja por nós próprios …

quarta-feira, maio 09, 2007

segunda-feira, abril 30, 2007

sexta-feira, abril 27, 2007

Think Pink!

Calorias são pequenos seres que vivem em guarda-fatos e, durante a noite, nos apertam as roupas.

Deixa comigo!

Eu pensava que não conhecer a Tundavala era um sacrilégio. E até prometi a mim mesmo lá ir brevemente. É evidente que utilizei a palavra sacrilégio em contraponto com o pecado que cometo quando vou a Roma e não visito Sua Santidade. Se por acaso não estiver de férias em Castelgandolfo. Eu sei que exagerei ao falar em sacrilégio. O mesmo aconteceria se dissesse heresia. A verdade é que não conheço a Tundavala. Mas tenho pena. E lá indo ponho a menina dos olhos em riste de modo a não perder pitada do que me indicam: Vila Arriaga, a Missão Católica, a Mahita, a represa, o terreiro, a cantina e o mais que conseguir. Até prometo ir às rolas. Ah! Se eu tivesse ainda a 22 longo com óculo! Era tiro e queda como eu fazia no Gimba, à coca debaixo do imbondeiro, com o Toninho Ferreira. Que não se me enevoe a vista e não me trema o dedo no gatilho.
Deixa comigo!
Mas o que eu verdadeiramente não esperava era ter recebido tantos recados com o que escrevi. Houve quem me dissesse que para conseguir olhar o belo da Tundavala eu "preciso de ter simplicidade no coração, ter ouvidos para ouvir o cantar dos pássaros, sentir o cheiro do verde, captar as vibrações que estão no ar... porque às vezes a vida que levamos bloqueia-nos os sentidos....". Houve até quem me aconselhasse a releitura de Chico Buarque "... Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma...". E não é que me lembrei então de um velho provérbio Africano: o tronco da árvore pode ficar muito tempo na água mas jamais será um crocodilo.
Pois é. Deixa comigo!
Do que eu preciso mesmo é de visitar o velho Liceu e sentado na sala de desenho do Ezequiel fechar os olhos e viajar, viajar, viajar... para ter a garantida certeza que o vazio de gente ao nosso lado não passa de uma circunstância.
Ainda estou a tempo. Deixa comigo!

quinta-feira, abril 26, 2007

O Pecado e o Sacrilégio

Ao reler os escritos de outrém deparei-me com esta afirmação peremptória: "Ir ao Lubango e não ir à Tundavala, é pior que ir a Roma e não ver o Papa." É que eu já fui a Roma e até ao Vaticano, um sem número de vezes, e nunca vi o Papa. Para mim, Roma é um deslumbramento para a vida. Roma seduz e vicia. Porque irresistível, a ela me rendo de cada vez que lá vou. E não é que eu, veramente um cabeça-de-pungo, já fui a Sá-da-Bandeira, ao Lubango e à Huila e nunca vi a Tundavala ? E dela dizem que “é como voar sem tirar os pés do chão. É uma vertigem e uma emoção. É esmagador, mete medo. É o fim do Mundo...”.
Voltarerei outras tantas vezes a Roma e concerteza cometerei o "pecado" de não ver o Papa. Mas ao tornar agora a Angola não devo cometer o "sacrilégio" de esquecer a Tundavala. Talvez aí relembre as palavras de César perante o Senado, a propósito da sua vitória sobre Fárnace, rei do Ponto: veni, vidi, vici. Mas sem pretensões de ter a meus pés o Império. Nem de rever o Arco de Constantino, o Panteão de Adriano, as fontes de Bernini, o gótico de Santa Maria Sopra Minerva, a geometria do Campo dei Fiori, a Piazza Navona, o Coliseu ou o Fórum Romano.
O que porventura me espantará na Tundavala é o que me apaixona em Roma: a banalidade do belo.
E, lá bem do alto da Tundavala, talvez reinvente a inesquecivel mulher, a descer segura as escadarias da Piazza di Spagna, tão deslumbrante quanto Anita Ekberg quando Frederico Fellini a decidiu mergulhar nas águas da fonte de Nicola Salvi. Imortalizando-a. Será?

sábado, abril 21, 2007

O Carteiro do 21

Eu não te prometo o mundo amor,
ilusões, perfumes raros, maravilhas no destino, um inverno de calor.
Eu não te prometo amor o mundo,
sal, desejo, lábios, sonhos em viajem, um delirio profundo.
Eu não te prometo o mundo amor,
descanso, santo caminho, sorrisos, sexto sentido, um temporal sem temor.
Eu não te prometo
amor o mundo.
O mundo amor
de presente te remeto.

quinta-feira, abril 19, 2007

O guardador de miragens

Há um rumor de dedos no voo rasante da memória quando te descrevo mar, maré, onda, vela, gesto nu, nesta miragem a navegar. Duna em flor até morrer no deserto de quem sonha por tanto se querer perder.

Livro das Crónicas da Guiné

Numa tabanca, perdida nos confins das matas da Guiné, o mais velho, de olhos cegos escondidos atrás de graduados óculos inúteis, pede-me que lhe arranje uns novos e ainda mais fortes. Ficou-me a estranha sensação de me considerarem um feiticeiro branco. Que importância terá para um velho cego um par de óculos novos? Prometi-lhe que os trazia na próxima viagem, mas esta dúvida viveu comigo e não me largou: um cego verá melhor com óculos de lentes claras e graduadas, pendurados na ponta do nariz?
E não é que eu acho que sim! Um cego não existe senão no olhar dos outros. E toda a gente se pode fazer de cega, mas mais dificilmente os próprios cegos. Os óculos são simbólicos e são uma ousadia. Podem não servir para ver as horas, mas podem ser um farol que espanta fantasmas. Ajudam a explicar que a cor do caju só pode dar naquele cheiro, porque quem tem óculos é que sabe de ciência certa. São um preciso desatacador de nós górdios da alma que chora debruçada nos olhos. Dão sentido e forte luz a mais um dia de vida e às chamas da fogueira que crescem consumindo-se todas as noites. Talvez ajudem a reencontrar lugares perdidos ou a reabrir baús esquecidos na memória. Um cego de óculos com lentes claras e graduadas não é ridículo. Ridículos são os que não acreditam no triunfo da magia de quem devia transportar alguns paus de feitiço nos seus bolsos ocupados de nada. Como aquele feiticeiro branco que me julguei ser. Que escusava confundir a sabedoria do velho homem com a costumeira litania urbana ou a mais bela claridade com a metáfora da luz ao fundo do túnel. Ridículo. Tão ridículo quanto pensar que ainda estamos a tempo de lavrar o chão da história que abandonámos em África.