quarta-feira, junho 06, 2007

Caderno dos Delírios

Hoje parto daqui.
Daqui onde as pernas me tropeçam por não querer criar raízes. Amanhã estou aí, onde o coração me voa do peito feito nau em mar aberto. Hoje homem-castelo. Amanhã flor-de-imbondeiro. Aqui anel de fogo no celeiro. Aí fio de vento no deserto. Hoje planto acácias daí nas muralhas dos meus olhos. Amanhã canto serenatas daqui às janelas dos meus sonhos. Pouso em repouso no cimo da árvore mais alta do meu destino. E descanso de mim.
Por fim.

terça-feira, junho 05, 2007

terça-feira, maio 29, 2007

Livro das Crónicas da Guiné (6)

Enquanto vou aqui desfiando as minhas memórias, entre a dor que comove pelo que vi e a esperança que me mobiliza para o que hei-de ver, há quem se entretenha a pensar o mundo através de gulosos olhos fardados com palas de alpaca. É o caso de uma Excelência que, nada tendo feito e nada se adivinhando vir a fazer por causas que nos enobrecem, decide pintar de negro as próprias fuças, talvez na esperança de que com abraços de urso outros possam também ser atingidos.
O que vou escrevinhando não é nada que se compare ao extraordinário, sublinho ordinário, Projecto de Relatório da dita Exa. Porque eu falo das minhas emoções. A Exa. fala das suas tolas preocupações. Porque eu escrevo do que me vai na alma. A Exa. escreve do que pensa que lhe falta no bolso. Porque eu sonho. A Exa. delira. Porque eu sei. A Exa. presume. Porque eu confio nas pessoas. A Exa. desconfia da própria sombra.
Talvez tudo isso se deva ao facto da Exa. estar instalada na capital da paróquia. E pense que tudo o resto não passa de um enorme circo onde a saloiada de vida alegre e fácil se diverte. É a visão da parvónia plena de radiosas personagens de que não se sabe o modo de vida, mas que a Exa. parece querer escrutinar. Talvez tudo isso se deva ao facto de eu imaginar ainda uma Lisboa civilizada. Mas observando o vómito do figurão, presumo que se transformou num escarro de si mesma. Revisitada assim, Lisboa parece-me apenas uma mercearia ou um medíocre estábulo onde alguns encostam o rabo. Mas Lisboa já não tem tino, nem bom senso, boa gente, nem gente boa? Nem nada? Não creio que assim seja, sinceramente!
Não compreendo a inquietação e o choro que algum indígena possa ensaiar, como se a expedição à Guiné tivesse sido uma fogueira ardendo suavemente, para gáudio de poucos ou de um só que seja. Nem tenho paciência para ouvir coveiros, na sua rotina de pouco sóbria fantasia, acerca da necessária grande barrela a interesseiros armados em pseudo-humanitários. Felizmente a Exa., com a inteligência que lhe coube, não teve o despautério de pedir contas ao cêntimo do chouriço, da aguardente com mel ou de outras iguarias que todas as toleironas figuras da expedição decidiram pagar repartidamente do seu próprio bolso, para que se preparassem fugazes almoços para tão longa viagem.
Haja quem responda pessoalmente aos quesitos colocados por inigualável pavão que, caindo na banalidade de desconhecendo o que quer que fosse, pronuncia judiciosos pareceres sobre a matéria. Perante tantos e curiosos exemplos de falta de originalidade, de mau siso e pouca reflexão, ocorre perguntar se não estaremos perante o eterno problema: é que mesmo que o palerma se julgue dono do palácio, ainda assim se esquece sempre de puxar o autoclismo?
Compreender o que faz correr a Exa. é todo um programa em que me escuso de participar. Porque não me faço definitivamente acompanhar por gente pouco recomendável, nem dou ouvidos a conversas de caserna entre comadres. E porque a Exa., ao apresentar o que apresentou e como o fez, sem cuidar de saber mais e melhor, tinha de ciência certa que nada é mais atraente que os escritos desonestos.
Como disse Jorge de Sena: O problema não é salvar Portugal, mas salvar-nos de Portugal. A que eu acrescentaria: e sobretudo de alguns Portugueses…

sábado, maio 12, 2007

Livro das Crónicas da Guiné


Em boa hora fui convocado a ver de perto essa mancha de indiferença que alastra mais veloz do que qualquer deserto. É a Guiné à nossa janela. Ou melhor, sendo a Guiné uma janela nossa, parece que não perceberemos nunca que há labaredas de indescritível miséria que nos entram casa adentro. E nos consomem devagar.
O Dicionário da Academia das Ciências certamente não encontrou a palavra que pode descrever o que sinto quando relembro o que vi nos olhos pasmados de uma criança, uma mãe preta, um mais velho. Porque neste mundo em que os distantes infernos em imagens nos invadem todos os dias, enquanto estamos refastelados no sofá de scotch on the rocks numa mão e salgadinhos rançosos na outra, há palavras que já consumiram o pavio que nos obrigavam a apagar com urgência os nossos incêndios de consciência.
Este não é o tempo de ser-se sibilino, qual cardeal da Cúria, para assumir um gesto que prevaleça sobre o mar de palavras com que a bem-pensância politica nos inunda sem descanso. Porque eu vi o que é o desespero sitiado e não encontro a palavra certa que o descreva. Perdoem-me. Porque eu conheço um provérbio árabe que nos recorda como um sitiado é sempre um vencido. Porque eu penso na tese de Malraux de que os homens mais tocados de humanidade não fazem revoluções: fazem bibliotecas e cemitérios.
Não há tempo para uma paixão fria. Nem há mais tempo para ouvir aquela morna que pergunta: Quem mostra'bo ess caminho longe? Agora é tudo uma questão de amor. Amor mesmo! Nem que seja por nós próprios …

quarta-feira, maio 09, 2007

segunda-feira, abril 30, 2007

sexta-feira, abril 27, 2007

Think Pink!

Calorias são pequenos seres que vivem em guarda-fatos e, durante a noite, nos apertam as roupas.

Deixa comigo!

Eu pensava que não conhecer a Tundavala era um sacrilégio. E até prometi a mim mesmo lá ir brevemente. É evidente que utilizei a palavra sacrilégio em contraponto com o pecado que cometo quando vou a Roma e não visito Sua Santidade. Se por acaso não estiver de férias em Castelgandolfo. Eu sei que exagerei ao falar em sacrilégio. O mesmo aconteceria se dissesse heresia. A verdade é que não conheço a Tundavala. Mas tenho pena. E lá indo ponho a menina dos olhos em riste de modo a não perder pitada do que me indicam: Vila Arriaga, a Missão Católica, a Mahita, a represa, o terreiro, a cantina e o mais que conseguir. Até prometo ir às rolas. Ah! Se eu tivesse ainda a 22 longo com óculo! Era tiro e queda como eu fazia no Gimba, à coca debaixo do imbondeiro, com o Toninho Ferreira. Que não se me enevoe a vista e não me trema o dedo no gatilho.
Deixa comigo!
Mas o que eu verdadeiramente não esperava era ter recebido tantos recados com o que escrevi. Houve quem me dissesse que para conseguir olhar o belo da Tundavala eu "preciso de ter simplicidade no coração, ter ouvidos para ouvir o cantar dos pássaros, sentir o cheiro do verde, captar as vibrações que estão no ar... porque às vezes a vida que levamos bloqueia-nos os sentidos....". Houve até quem me aconselhasse a releitura de Chico Buarque "... Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma...". E não é que me lembrei então de um velho provérbio Africano: o tronco da árvore pode ficar muito tempo na água mas jamais será um crocodilo.
Pois é. Deixa comigo!
Do que eu preciso mesmo é de visitar o velho Liceu e sentado na sala de desenho do Ezequiel fechar os olhos e viajar, viajar, viajar... para ter a garantida certeza que o vazio de gente ao nosso lado não passa de uma circunstância.
Ainda estou a tempo. Deixa comigo!

quinta-feira, abril 26, 2007

O Pecado e o Sacrilégio

Ao reler os escritos de outrém deparei-me com esta afirmação peremptória: "Ir ao Lubango e não ir à Tundavala, é pior que ir a Roma e não ver o Papa." É que eu já fui a Roma e até ao Vaticano, um sem número de vezes, e nunca vi o Papa. Para mim, Roma é um deslumbramento para a vida. Roma seduz e vicia. Porque irresistível, a ela me rendo de cada vez que lá vou. E não é que eu, veramente um cabeça-de-pungo, já fui a Sá-da-Bandeira, ao Lubango e à Huila e nunca vi a Tundavala ? E dela dizem que “é como voar sem tirar os pés do chão. É uma vertigem e uma emoção. É esmagador, mete medo. É o fim do Mundo...”.
Voltarerei outras tantas vezes a Roma e concerteza cometerei o "pecado" de não ver o Papa. Mas ao tornar agora a Angola não devo cometer o "sacrilégio" de esquecer a Tundavala. Talvez aí relembre as palavras de César perante o Senado, a propósito da sua vitória sobre Fárnace, rei do Ponto: veni, vidi, vici. Mas sem pretensões de ter a meus pés o Império. Nem de rever o Arco de Constantino, o Panteão de Adriano, as fontes de Bernini, o gótico de Santa Maria Sopra Minerva, a geometria do Campo dei Fiori, a Piazza Navona, o Coliseu ou o Fórum Romano.
O que porventura me espantará na Tundavala é o que me apaixona em Roma: a banalidade do belo.
E, lá bem do alto da Tundavala, talvez reinvente a inesquecivel mulher, a descer segura as escadarias da Piazza di Spagna, tão deslumbrante quanto Anita Ekberg quando Frederico Fellini a decidiu mergulhar nas águas da fonte de Nicola Salvi. Imortalizando-a. Será?

sábado, abril 21, 2007

O Carteiro do 21

Eu não te prometo o mundo amor,
ilusões, perfumes raros, maravilhas no destino, um inverno de calor.
Eu não te prometo amor o mundo,
sal, desejo, lábios, sonhos em viajem, um delirio profundo.
Eu não te prometo o mundo amor,
descanso, santo caminho, sorrisos, sexto sentido, um temporal sem temor.
Eu não te prometo
amor o mundo.
O mundo amor
de presente te remeto.

quinta-feira, abril 19, 2007

O guardador de miragens

Há um rumor de dedos no voo rasante da memória quando te descrevo mar, maré, onda, vela, gesto nu, nesta miragem a navegar. Duna em flor até morrer no deserto de quem sonha por tanto se querer perder.

Livro das Crónicas da Guiné

Numa tabanca, perdida nos confins das matas da Guiné, o mais velho, de olhos cegos escondidos atrás de graduados óculos inúteis, pede-me que lhe arranje uns novos e ainda mais fortes. Ficou-me a estranha sensação de me considerarem um feiticeiro branco. Que importância terá para um velho cego um par de óculos novos? Prometi-lhe que os trazia na próxima viagem, mas esta dúvida viveu comigo e não me largou: um cego verá melhor com óculos de lentes claras e graduadas, pendurados na ponta do nariz?
E não é que eu acho que sim! Um cego não existe senão no olhar dos outros. E toda a gente se pode fazer de cega, mas mais dificilmente os próprios cegos. Os óculos são simbólicos e são uma ousadia. Podem não servir para ver as horas, mas podem ser um farol que espanta fantasmas. Ajudam a explicar que a cor do caju só pode dar naquele cheiro, porque quem tem óculos é que sabe de ciência certa. São um preciso desatacador de nós górdios da alma que chora debruçada nos olhos. Dão sentido e forte luz a mais um dia de vida e às chamas da fogueira que crescem consumindo-se todas as noites. Talvez ajudem a reencontrar lugares perdidos ou a reabrir baús esquecidos na memória. Um cego de óculos com lentes claras e graduadas não é ridículo. Ridículos são os que não acreditam no triunfo da magia de quem devia transportar alguns paus de feitiço nos seus bolsos ocupados de nada. Como aquele feiticeiro branco que me julguei ser. Que escusava confundir a sabedoria do velho homem com a costumeira litania urbana ou a mais bela claridade com a metáfora da luz ao fundo do túnel. Ridículo. Tão ridículo quanto pensar que ainda estamos a tempo de lavrar o chão da história que abandonámos em África.
"Uma gaiola ia à procura de um pássaro"
[Kafka]

quarta-feira, abril 18, 2007

É tão difícil guardar um rio
Sobretudo quando ele corre
dentro de nós
Jorge de Sousa Braga, O Guarda-Rios

terça-feira, abril 17, 2007

Partir
sim, mas partir realmente,
definitivamente,
cobra que deixa a pela já crestada dos sóis
e se empoleira nas árvores como um passáro
...
Depois,
raspar com as unhas no chão e enterrar-me,
deixando os olhos de fora
para que neles poise
o último orvalho da manhã.
João José Cochofel

segunda-feira, abril 16, 2007

Nos brancos abismos é que se estuda, e dormir faz bem às palavras.
Herberto Helder

sábado, abril 14, 2007

"Não faço planos para a vida,
para não perturbar os planos
que a vida tem para mim."
Agostinho da Silva

sexta-feira, abril 13, 2007

Livro das Crónicas da Guiné

Land Rover tem hoje para mim um sentido novo. Muito diferente do jeep aventura dos sonhos atascados em dunas da minha juventude. Desassossega-me a memória, traz-me as cores do mar enceularado (escrito mesmo assim), o cheiro a terra, a mangas e a pitangas maduras. Lembra-me a primeira bicicleta, mas fez-se trem que me toca e provoca os sentidos. Nas estradas que se parecem mais com campos de batalha, não me soa estranha a canção, que a rádio passa aos soluços, de Kate Bush, "Kashka from Bagdad": a lua não brilha o bastante para os olhos cegos pela paixão…
Se há quem diga que o último refúgio contra os telemóveis é a cabine telefónica, eu vos garanto que a ultima trincheira contra a indiferença é, no mínimo, um sorriso beijado nos olhos de uma criança nestas Terras do Fim do Mundo. E não falo de risos hipócritas, insensíveis, egoístas, tocados de fingida humanidade e a que se poderiam colar aos lábios uma legenda quase pornográfica.
A minha infância também correu aos ombros de África. Tenho dentro de mim a sua geografia íntima, mas num mapa que se tornou obsoleto, assim como a ideia originária que eu guardava do mais velho Land Rover de que me lembro.
Por aqui, onde nasci e porventura morrerei, sinto-me definitivamente condenado à liberdade.

ENCANTOS

Porque o que basta acaba onde basta e onde acaba não basta
Álvaro de Campos

quinta-feira, abril 12, 2007

DESENCANTOS

Tudo é gratuito, o jardim, esta cidade, e eu mesmo; quando acontece da gente se dar conta disso, isso atinge o cabeça e tudo começa a flutuar; eis a náusea.
É então isto a Náusea, esta ofuscante evidência? As voltas que dei à cabeça! Tanto que escrevi acerca dela! Agora sei: existo - o mundo existe - e sei que o mundo existe. É tudo. Mas é-me indiferente. É estranho que tudo me seja indiferente: mete-me medo que assim seja.
A Náusea de Jean-Paule Sartre

ENCANTOS

Às 9h da manhã, um homem
subia as escadas monumentais com uma
borboleta poisada no ombro.
Nunca vi ciência mais exacta.


COIMBRA por Manuel Silva-Terra

quarta-feira, abril 11, 2007

O rio dos meus silêncios

Como é denso este silêncio que não me deixa fugir de mim, nem da nudez das palavras, nem de cegos os dedos meus, em que te sinto e pressinto como um rio que não tem fim.

quinta-feira, abril 05, 2007

Livro das Crónicas da Guiné

Vejo em todos os lugares, por onde passeiam os meus próprios olhos e me contam de viva voz, que há aqui um desejo de amor incontido, sincero e transbordante. Tão genuinamente puro e inocente que dói e faz sangrar mesmo um coração tamanho missanga. E concluo: triste país o nosso em que o mar se fez muro e abdicou de ser mundo. O mundo é agora, para nós, um lugar distante de mais. E no muro choramos silêncios, fingimos abstinências e fugimos da sombra de todos os adamastores. Distantes do mundo e recostados no muro, dormimos tranquilos agarrados ao rosário das nossas lamentações e das pequenas lamúrias sem sentido. Espiamos reinventados pecados cravados a fogo na alma e aguardamos sossegadamente a morte na ponta de uma espada de negro empunhada. É mais do que tempo de domesticar os nossos fantasmas e remetê-los à poeira da história.

terça-feira, abril 03, 2007

Livro das Crónicas da Guiné

Um sábio provérbio africano diz que o rio faz desvios inesperados porque ninguém lhe mostrou o caminho. E eu aqui sentado, onde preencho as manhãs com repetitivos exercícios de apartar amarras a pensamentos circulares, de olhar perdido na doçura do Curubal, sinto que me pareço cada vez mais com um rio: não precisamos de pastores, por mais que nos tentem desviar o curso, apantanar as águas ou comprimir as margens.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

O nunca mais não existe

Tenho a leve impressão que comecei a jogar matraquilhos cedo. Mesmo antes de me imaginar craque da bola a sério. O que se revelou de todo em todo um desastre. A jogar ping-pong (no meu tempo não se chamava pomposamente ténis de mesa) tenho a certeza absoluta que me iniciei na sede dos Bombeiros na Avenida onde ao longo dos anos disputei aguerridas partidas. Nunca joguei ténis no Clube Náutico, mas perdi manhãs de praia a ver babado quem jogava. Principalmente pelo estilo anos sessenta das vestimentas de tons claros, quase bebé, e pela souplesse dos competidores.
Mas importa agora mesmo é falar dos matraquilhos, jogo bem mais ao meu nível, na altura e ainda hoje, porque descobri em leitura recente uma série de aspectos interessantes: que em Portugal há mais de três mil jogadores federados; que os campioníssimos lusos faltam às competições internacionais porque os nossos bonecos são de chumbo enquanto lá fora são de plástico; e que os nossos matrecos são o pebolim do Brasil, o foosball dos EUA e o futbolín em Espanha.
Mas interessante-interessante mesmo é saber que os matraquilhos nasceram pela mão do galego Alexandre Finisterre, poeta falhado (como eu e tantos de nós) e que ferido na Guerra Civil espanhola, viu, no hospital onde estava, meninos ainda mais mutilados e com uma tristeza que parecia irremediável: nunca mais poderem jogar futebol. Lembrou-se então de pô-los a sonhar novamente com a bola-a-rolar através de uma mesa com balizas, bonecos juntos por uma barra e obrigatoriamente uma bola.
Assim se prova que o nunca mais não existe. Haja sonho e vontade de correr atrás da redondinha, nem que seja só com os olhos.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Comemoraste?

Ontem foi o Dia dos Namorados. Estranhamente, ou talvez não, foi igualmente o Dia da Disfunção Eréctil. Não sei se a escolha foi pensada, resulta de pura inocência ou não passa de uma coincidência. Mas que meter o Dia ou a Noite da Disfunção Eréctil no Dia dos Namorados é no mínimo uma sacanagem – como dizem os nossos irmãos brasileiros, lá isso parece.
Valha-nos aquela ideia de que o Natal é sempre que um homem quiser. Que o mesmo é poder dizer que Dia dos Namorados pode ser todos os dias. Só que a pensar assim, o Dia da Disfunção Eréctil também. Pelo menos para alguns quando não para muitos.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

SIM

Quem ainda não sabia fica a saber que eu era do SIM no referendo sobre a despenalização voluntária da gravidez até às dez semanas.
Mas do que eu gostei mesmo foi de saber que o padre Manuel Costa Pinto de 79 anos, um dos raros presbíteros que assumiram votar sim, foi acarinhado pelos seus conterrâneos na altura em que votou, na Escola Primária de Almofala em Castro Daire no distrito de Viseu.
Não sei se o padre Manuel votou como votou pelas mesmas razões que eu o fiz. Nem isso será importante para qualquer um de nós. Mas tenho a certeza que por esses dias ele se lembrou como eu daqueles de quem Jesus dizia: «Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os aliviar» (Mt.23.4).
É que muito boa gente em vez de estar obcecada com a condenação melhor seria preocupar-se com a misericórdia. Que por acaso são os mesmos que entendem dever subordinar o homem ao sábado, e não o sábado ao homem.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Prendem-me os sonhos mas eu não me rendo

Numa notícia do "Guardian", investigadores afirmam que uma técnica de neuroimagiologia, através de ressonância magnética funcional, permite ler as intenções da pessoa num futuro próximo. "Conseguimos procurar no cérebro informação específica e ler intenções reais do indivídiuo. As imagens que vimos são como que uma lanterna que nos deixa ler gravuras na parede de uma gruta escura", afirmaram. A descoberta transforma em realidade cenários até hoje do campo da ficção, como o do filme de Steven Spielberg "Relatório Minoritário". No filme, uma brigada "pré-crime" persegue o herói por um crime que ele ainda não cometeu mas que já se instalou na sua memória cognitiva.
E se eu só estiver a pensar em rever miragens, mas, reimaginando-as, a minha memória inunda o cérebro de gente fantasiada de abraços e beijos, brincadeiras na areia e coisas que tais e muito mais? Sou apanhado, preso e torturado, antes mesmo de lá chegar?
Eu já desconfiava que só faltava mesmo inventar um ladrão de sonhos por realizar.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Tem dias

Há dias em que quero meter a cara toda dentro dos céus para que os meus caminhos não sejam só coisas dentro de mim. Mas há dias em que desconfio da utilidade da caixa de jóias onde guardo tesouros, mapas secretos e feitiços vários. Há dias em que desejo fazer deste baú uma fogueira onde ardam histórias incertas, cartas com explicações inábeis e olhares sobre os despojos de uma vida. Mas há dias em que me pergunto se pode alguém ler este falar de mim para mim como se lê um livro, chegar à página tal, pôr lá uma marca e depois ir-se deitar como um feliz contador de estrelas? Não pode! O passado persegue-nos e morde-me nos calcanhares. E eu gosto!
E há dias em que não me apetece fujir daqui.