Aponto no meu caderno:
Eu sou um veterano da minha ininterrupta infância.
Eu sou um veterano da minha ininterrupta infância.
Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar
Enquanto vou aqui desfiando as minhas memórias, entre a dor que comove pelo que vi e a esperança que me mobiliza para o que hei-de ver, há quem se entretenha a pensar o mundo através de gulosos olhos fardados com palas de alpaca. É o caso de uma Excelência que, nada tendo feito e nada se adivinhando vir a fazer por causas que nos enobrecem, decide pintar de negro as próprias fuças, talvez na esperança de que com abraços de urso outros possam também ser atingidos.
Eu pensava que não conhecer a Tundavala era um sacrilégio. E até prometi a mim mesmo lá ir brevemente. É evidente que utilizei a palavra sacrilégio em contraponto com o pecado que cometo quando vou a Roma e não visito Sua Santidade. Se por acaso não estiver de férias em Castelgandolfo. Eu sei que exagerei ao falar em sacrilégio. O mesmo aconteceria se dissesse heresia. A verdade é que não conheço a Tundavala. Mas tenho pena. E lá indo ponho a menina dos olhos em riste de modo a não perder pitada do que me indicam: Vila Arriaga, a Missão Católica, a Mahita, a represa, o terreiro, a cantina e o mais que conseguir. Até prometo ir às rolas. Ah! Se eu tivesse ainda a 22 longo com óculo! Era tiro e queda como eu fazia no Gimba, à coca debaixo do imbondeiro, com o Toninho Ferreira. Que não se me enevoe a vista e não me trema o dedo no gatilho.
Ao reler os escritos de outrém deparei-me com esta afirmação peremptória: "Ir ao Lubango e não ir à Tundavala, é pior que ir a Roma e não ver o Papa." É que eu já fui a Roma e até ao Vaticano, um sem número de vezes, e nunca vi o Papa. Para mim, Roma é um deslumbramento para a vida. Roma seduz e vicia. Porque irresistível, a ela me rendo de cada vez que lá vou. E não é que eu, veramente um cabeça-de-pungo, já fui a Sá-da-Bandeira, ao Lubango e à Huila e nunca vi a Tundavala ? E dela dizem que “é como voar sem tirar os pés do chão. É uma vertigem e uma emoção. É esmagador, mete medo. É o fim do Mundo...”.
Numa tabanca, perdida nos confins das matas da Guiné, o mais velho, de olhos cegos escondidos atrás de graduados óculos inúteis, pede-me que lhe arranje uns novos e ainda mais fortes. Ficou-me a estranha sensação de me considerarem um feiticeiro branco. Que importância terá para um velho cego um par de óculos novos? Prometi-lhe que os trazia na próxima viagem, mas esta dúvida viveu comigo e não me largou: um cego verá melhor com óculos de lentes claras e graduadas, pendurados na ponta do nariz?