quinta-feira, abril 05, 2007

Livro das Crónicas da Guiné

Vejo em todos os lugares, por onde passeiam os meus próprios olhos e me contam de viva voz, que há aqui um desejo de amor incontido, sincero e transbordante. Tão genuinamente puro e inocente que dói e faz sangrar mesmo um coração tamanho missanga. E concluo: triste país o nosso em que o mar se fez muro e abdicou de ser mundo. O mundo é agora, para nós, um lugar distante de mais. E no muro choramos silêncios, fingimos abstinências e fugimos da sombra de todos os adamastores. Distantes do mundo e recostados no muro, dormimos tranquilos agarrados ao rosário das nossas lamentações e das pequenas lamúrias sem sentido. Espiamos reinventados pecados cravados a fogo na alma e aguardamos sossegadamente a morte na ponta de uma espada de negro empunhada. É mais do que tempo de domesticar os nossos fantasmas e remetê-los à poeira da história.

terça-feira, abril 03, 2007

Livro das Crónicas da Guiné

Um sábio provérbio africano diz que o rio faz desvios inesperados porque ninguém lhe mostrou o caminho. E eu aqui sentado, onde preencho as manhãs com repetitivos exercícios de apartar amarras a pensamentos circulares, de olhar perdido na doçura do Curubal, sinto que me pareço cada vez mais com um rio: não precisamos de pastores, por mais que nos tentem desviar o curso, apantanar as águas ou comprimir as margens.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

O nunca mais não existe

Tenho a leve impressão que comecei a jogar matraquilhos cedo. Mesmo antes de me imaginar craque da bola a sério. O que se revelou de todo em todo um desastre. A jogar ping-pong (no meu tempo não se chamava pomposamente ténis de mesa) tenho a certeza absoluta que me iniciei na sede dos Bombeiros na Avenida onde ao longo dos anos disputei aguerridas partidas. Nunca joguei ténis no Clube Náutico, mas perdi manhãs de praia a ver babado quem jogava. Principalmente pelo estilo anos sessenta das vestimentas de tons claros, quase bebé, e pela souplesse dos competidores.
Mas importa agora mesmo é falar dos matraquilhos, jogo bem mais ao meu nível, na altura e ainda hoje, porque descobri em leitura recente uma série de aspectos interessantes: que em Portugal há mais de três mil jogadores federados; que os campioníssimos lusos faltam às competições internacionais porque os nossos bonecos são de chumbo enquanto lá fora são de plástico; e que os nossos matrecos são o pebolim do Brasil, o foosball dos EUA e o futbolín em Espanha.
Mas interessante-interessante mesmo é saber que os matraquilhos nasceram pela mão do galego Alexandre Finisterre, poeta falhado (como eu e tantos de nós) e que ferido na Guerra Civil espanhola, viu, no hospital onde estava, meninos ainda mais mutilados e com uma tristeza que parecia irremediável: nunca mais poderem jogar futebol. Lembrou-se então de pô-los a sonhar novamente com a bola-a-rolar através de uma mesa com balizas, bonecos juntos por uma barra e obrigatoriamente uma bola.
Assim se prova que o nunca mais não existe. Haja sonho e vontade de correr atrás da redondinha, nem que seja só com os olhos.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Comemoraste?

Ontem foi o Dia dos Namorados. Estranhamente, ou talvez não, foi igualmente o Dia da Disfunção Eréctil. Não sei se a escolha foi pensada, resulta de pura inocência ou não passa de uma coincidência. Mas que meter o Dia ou a Noite da Disfunção Eréctil no Dia dos Namorados é no mínimo uma sacanagem – como dizem os nossos irmãos brasileiros, lá isso parece.
Valha-nos aquela ideia de que o Natal é sempre que um homem quiser. Que o mesmo é poder dizer que Dia dos Namorados pode ser todos os dias. Só que a pensar assim, o Dia da Disfunção Eréctil também. Pelo menos para alguns quando não para muitos.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

SIM

Quem ainda não sabia fica a saber que eu era do SIM no referendo sobre a despenalização voluntária da gravidez até às dez semanas.
Mas do que eu gostei mesmo foi de saber que o padre Manuel Costa Pinto de 79 anos, um dos raros presbíteros que assumiram votar sim, foi acarinhado pelos seus conterrâneos na altura em que votou, na Escola Primária de Almofala em Castro Daire no distrito de Viseu.
Não sei se o padre Manuel votou como votou pelas mesmas razões que eu o fiz. Nem isso será importante para qualquer um de nós. Mas tenho a certeza que por esses dias ele se lembrou como eu daqueles de quem Jesus dizia: «Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os aliviar» (Mt.23.4).
É que muito boa gente em vez de estar obcecada com a condenação melhor seria preocupar-se com a misericórdia. Que por acaso são os mesmos que entendem dever subordinar o homem ao sábado, e não o sábado ao homem.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Prendem-me os sonhos mas eu não me rendo

Numa notícia do "Guardian", investigadores afirmam que uma técnica de neuroimagiologia, através de ressonância magnética funcional, permite ler as intenções da pessoa num futuro próximo. "Conseguimos procurar no cérebro informação específica e ler intenções reais do indivídiuo. As imagens que vimos são como que uma lanterna que nos deixa ler gravuras na parede de uma gruta escura", afirmaram. A descoberta transforma em realidade cenários até hoje do campo da ficção, como o do filme de Steven Spielberg "Relatório Minoritário". No filme, uma brigada "pré-crime" persegue o herói por um crime que ele ainda não cometeu mas que já se instalou na sua memória cognitiva.
E se eu só estiver a pensar em rever miragens, mas, reimaginando-as, a minha memória inunda o cérebro de gente fantasiada de abraços e beijos, brincadeiras na areia e coisas que tais e muito mais? Sou apanhado, preso e torturado, antes mesmo de lá chegar?
Eu já desconfiava que só faltava mesmo inventar um ladrão de sonhos por realizar.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Tem dias

Há dias em que quero meter a cara toda dentro dos céus para que os meus caminhos não sejam só coisas dentro de mim. Mas há dias em que desconfio da utilidade da caixa de jóias onde guardo tesouros, mapas secretos e feitiços vários. Há dias em que desejo fazer deste baú uma fogueira onde ardam histórias incertas, cartas com explicações inábeis e olhares sobre os despojos de uma vida. Mas há dias em que me pergunto se pode alguém ler este falar de mim para mim como se lê um livro, chegar à página tal, pôr lá uma marca e depois ir-se deitar como um feliz contador de estrelas? Não pode! O passado persegue-nos e morde-me nos calcanhares. E eu gosto!
E há dias em que não me apetece fujir daqui.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Menina do Mar

Eu sou aquele rapaz
cabeça cheia de porquês
náufrago nas vezes que se faz
às páginas encantatórias de Sophia.
Eu sou aquele rapaz
que todos os dias se esquece de ti
e se omite de mim

perseguido pela história de mais um dia de vida.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Livro das Preciosidades

Preciosos os sentimentos que mexendo-se tão devagar demoram uma eternidade a abandonar-nos e a mudar de lugar.

Felizes para sempre

Apaga a luz - disse ela.
Dá-me um beijo - pediu ele.
E nunca mais gastaram palavras.

domingo, janeiro 28, 2007

Ensaio sobre a Cagança

Aponto no meu caderno:
Sinto-me aqui como um achigã, aquele peixe a que chamam a truta do sul. Mas será que sabem que há um sul para lá do sul? E será que o achigã sabe ou sequer desconfia do mar imenso que está para além deste rio estreito entre-margens de chão minado?
Sento-me aqui e mesmo a cantar de galo sinto-me como um pavão triste. Quando não um peru já trinchado à procura da sua véspera. E a culpa chora em prosa abraçada a mim.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Febre Canalha

Em noites de manso luar ou em manhãs de breve sol anoto os meus lugares e sonhos perdidos onde, num tempo distante, imaginei nesgas de paraíso: uma rua, um recanto, um conto, uma praça, uma árvore, um banco de jardim, um pássaro com asas de vento, os acordes de uma canção, os olhos cegos de paixão, um livro desencantado, um sorriso que toca, uma quinta-feira, o deserto, uma ilha deserta, um quadro enigmático, um porto para a ousadia do mar, um fantasma que dança comigo, um céu à volta dos astros, um silêncio denso, uma passagem secreta, um cão amarrado a uma trela, uma fotografia a preto e branco, um palco, uma festa, uma feira, um chão de mármore, um filme, um rosto, um calendário, um passeio, um testemunho de inocência feita tempestade, uma jura reafirmada, uma bola que rola, uma finta, uma fífia, uma história de afectos, uma promessa de fim da estrada, o som da rádio em desassossego, um duche frio sobre a resignação, um sussurro, um véu, uma criança, um papagaio de papel, um pecado perfumado, a margem de um rio, uma febre, um mapa para um plano vadio, outra febre, uma brincadeira na areia, a celebração da vida e outra febre, um derrame de azul ou de verde ou de amarelo canário. Uma miragem.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

o tópico

Quem?
Eu, tu, nós?
Os olhos,
as palavras, o pudor,
os enfeites, as miragens, a canção,
os gritos, o silêncio,
os lábios.
Meus, teus, nossos?
Quais?

sábado, janeiro 13, 2007

A caminho de mim

Escrevo para dentro. E há quem lhe chame egoísmo? Rasgo trincheiras para que os afectos não se rendam. Abrigo-me onde a chuva não seja triste e haja sentido para pausas mágicas. Escrevo para dentro de mim. E há quem lhe chame egoísmo? Cai-me o que escrevo aos tombos neste laboratório de vento onde apuro a arte do voo.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Caderno dos delírios

Há sempre um trilho que conduz ao tempo suspenso no avesso das montanhas e nos permite desviar do carreiro da bem-pensância dos arrumadinhos.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Fotógrafo do Nunca e de outras Raridades

Este é o tempo das raridades. Porque este é o tempo dos pássaros de asas atadas. Uma carta é uma raridade. Raridade é cavalgar ondas no dorso das dunas. Ingénua emoção de cavaleiro épico em busca do espanto original no perfume das flores do deserto. Um modelo sem molde é uma raridade. Raridade é sonhar à sombra de mucuios à beira de um rio. E depois colher açucenas imaginárias ou outras flores nascidas de sementes trazidas pelo vento leste. Porque nunca se deixa prender entre comportamentos de margens estreitas. Este é o tempo que matou o tempo em que se dizendo nunca se queria dizer agora. Uma fotografia rara que acendia pirilampos em plena escuridão do dia.
Não é uma raridade eu querer matar-te. Mas se te quero matar, porque preciso de te matar tantas vezes?

segunda-feira, janeiro 08, 2007

À esquina do tempo

O tempo não se dobra nem se gasta. Desgasta-me mas não me verga. Os olhos pedem-me mundo mas também a margem de um rio onde possa serenar o coração.

O encantador de miragens

Sobra-me em vontade o que me falta em talento: nunca conseguirei ensinar um canário a cantar quanto mais encantar as miragens que me morrem nos olhos.

Circunstâncias

Há circunstâncias em que alguém demitir-se é um acto de responsabilidade. Um exercício mínimo contra o acocorar da honra. Na verdade, há circunstâncias que quando alguém se não demite há outro alguém que se está demitindo. Perigosamente …
Há um incompreensivel mistério, quase um despropósito, nos que temem ser condenados à liberdade. E aqueles que terão de ser punidos não devem esperar que, para eles e só para eles, à justiça vacile o braço que ergue a espada.

sábado, janeiro 06, 2007

água benta

Esta noite apetece-me dobrar a esquina dos silêncios que há em mim. Dar dois passos adiante. Depois descansar bem mergulhado e melhor arrolhado em aguardente de medronho. Ao regressar mil anos adiante descobrir que tudo não passou de um sonho. Até mesmo a solidão se pode embebedar assim. Ou então com repetidas pequenas doses de presunção de amante.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

A suplica do nunca mais

Nunca deixo de te mentir e escrever-te, calar-me, falar-te, sentir. nunca deixo nunca de ouvir os teus segredos pousados em estendais à beira-mar e os códigos secretos da praia do meu silêncio em sábados por te revelar. nunca. nunca os abraços desertos teus serão meus nem os meus braços mudos os teus. nunca. deixo de te mentir e ler-te, amar-me, cantar-te, sorrir. nunca deixes mais. nunca. nunca mais.

terça-feira, dezembro 26, 2006

O olhar para dentro
e só depois caminhar
borboletas às cores
sentadas nos ombros
e pássaros do sul
a cantarem segredos
a boca grávida
de frutos silvestres
e os olhos verdes
pintados de mar
e a sonhar calados

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Eu sou o meu herói

Aqui nas dunas a falar-te de mim.
Dos sonhos que dançam comigo todas as noites. Inverno de andorinhas que pousam devagar e teimam que não sabem voar. Dos carreiros de areia fina onde os meus passos se vingam em marcha lenta. Vales perdidos entre montes sem fim quando perguntavas por ti e eu sem me encontrar. Dos velhos ribeiros que me correm nas veias querendo ser ondas e ter uma praia para namorar. E que morrem cansados na ilusão de que são rios caudalosos ou até correntes do mar. Do sabor a sal que há no silêncio das palavras por dizer. E nas promessas por fazer. Tempestades caprichosas que me dão guinadas ao destino por domar. Do cheiro a fruta madura que apetece e que o teu corpo me parece. Coração debruçado no parapeito dos olhos com que retoco os teus cabelos em desalinho no ar.
Aqui nas dunas a segredar-te por mim.
Dos gritos calados. Dos silêncios magoados. Das tardias manhãs que não voltam mais. Das miragens que há nos meus olhos desertos. Das noites de lua cheia que iluminam os verões. Os meus dedos trémulos de espanto nas esperas da tua pele. Os teus lábios incendeiam-me os sentidos. Uma tempestade anunciada. De mãos e corpos à beira do precipício, línguas de sol a pique, paixão à borda do abismo, amor, amor. A teia tecendo a aranha. Vem, minha, tua, teu, mulher, fogo, fogueira, isso, mais, sim, noite fora, desejo, dá-me, dou-te, recebe-me, teu, os braços e os abraços. Perco-me e perdendo-me minto-te e desminto. Falta-me tudo quando já toda te tenho. Adivinho-te a alma remendada de estrelas enquanto o fumo do meu cachimbo invade o céu.
Aqui nas dunas a descobrir-te para mim.
Finalmente convoco os deuses todos e cego-lhes os olhos. Prendo-lhes as mãos atrás das costas. Ato-os e desato-me por fora e por dentro de laços e nós. Faço alinhar um pelotão de fuzilamento. Pergunto-lhes pelo último desejo. Brindo à vida e embebedo-me de sangue. E faço três vezes o sinal. O sinal da cruz fazes três vezes. Então eu sou barco, eu sou vela e sou vento, marinheiro de primeira viajem e eu sou gajeiro. Eu fui o feitiço e o feiticeiro. E habito uma espada que dói. E te fende assim devagar. Porque eu sou mar depois de tanto te amar. E eu sou o meu herói.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Atei-te uma miragem aos olhos
e os teus olhos disseram que sim

Guardador de memórias

Guardei-nos
numa garrafa de vidro
de um verde garrafa
de um vidro lembrança
guardei-nos
numa calda de esperança
e agora que faço
destapo ou desfaço?

sábado, dezembro 16, 2006